Crédito Agrícola pagava dois mil euros à mulher do presidente para lhe garantir “estabilidade emocional”

A mulher de Licínio Pina recebia uma subvenção por ter abdicado da carreira de professora para garantir “estabilidade emocional” ao marido.

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Licínio Pina está à frente do Crédito Agrícola desde 2012 LUSA/MANUEL DE ALMEIDA

Durante vários meses, a mulher do presidente do Crédito Agrícola (CA), Licínio Pina, recebeu uma subvenção de “mais de dois mil euros líquidos mensais” por compensação por ter prescindido da carreira de professora para garantir “estabilidade emocional” ao marido no exercício das suas funções.

A história, contada esta sexta-feira pelo Jornal de Notícias (JN) e Diário de Notícias, revela que os pagamentos à mulher de Licínio Pina começaram no início de 2016 e só terão cessado na sequência de cartas anónimas que começaram a circular no grupo em 2018, chegando ao conhecimento do Banco de Portugal (BdP) e levando o supervisor a pedir esclarecimentos já no final desse ano.

É precisamente numa carta de 18 de Agosto de 2018, citada pelo JN, que Licínio Pina esclarece o motivo da subvenção a Maria Ascensão Pina: “A minha esposa é há mais de 36 anos o meu factor de equilíbrio e sempre me ajudou. Quando aceitei este desafio, coloquei como condição tê-la ao meu lado”.

“Para o exercício das minhas funções e responsabilidades, necessito de disponibilidade total e, acima de tudo, estabilidade emocional”, justificava o banqueiro, nessa carta que terá sido enviada às várias Caixas Agrícolas quando as denúncias anónimas começaram a circular.

Em Novembro, em entrevista à TSF/Dinheiro Vivo (DV), Licínio Pina desvalorizou o caso, quando questionado pelos jornalistas: “Não aconteceu nada”.

“Isso não existe. Foi em cartas anónimas que foi levantada. A minha mulher é professora, não tem [relação com o Crédito Agrícola]”, afirmou então.

Mais tarde, já depois da entrevista, o banqueiro voltou a ser questionado pelo JN/DV sobre este tema. E escolheu responder através de fonte oficial do grupo financeiro, que adiantou que “a afirmação feita durante a entrevista tem a ver com a situação actual, onde não existe nenhuma ligação da esposa ou de qualquer outro familiar do engenheiro Licínio Pina ao CA”.

A mesma fonte sublinhou ao JN/DV que “o mandato actual de 2019-2021 está devidamente autorizado pelas autoridades reguladoras”, mas não esclareceu quando é que os pagamentos mensais a Maria Ascensão Pina deixaram de ser feitos.

Em Outubro do ano passado, o BdP recebeu cartas anónimas oriundas do Grupo Crédito Agrícola, que levaram a instituição liderada por Carlos Costa a questionar a administração da Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo (CCCAM), liderada por Licínio Pina.

Como o PÚBLICO noticiou, um dos temas que suscitava preocupação ao supervisor dizia respeito à contratação da “esposa do presidente do CAE [conselho de administração executivo] da Caixa Central”.

O BdP pediu então várias informações, como “a descrição do processo de selecção e de recrutamento”, incluindo a “aprovação dos referidos processos e a respectiva documentação de suporte”.

Também requereu “a descrição da função e respectivas responsabilidades da esposa do presidente do CAE na Caixa Central, bem como da direcção em que se encontra integrada e da data da sua contratação”.

Sobre a carta de Licínio Pina que o JN noticia nesta sexta-feira, fonte oficial do grupo Crédito Agrícola respondeu que “deve ser uma carta divulgada para as Caixas Agrícolas na sequência de denúncias anónimas e reportadas ao mandato de 2016-2018”.

Nessa carta, Licínio Pina, à frente do CA desde 2012, garantia que o pagamento à mulher tinha sido decidido pelo “próprio Conselho Geral e de Supervisão que, em Fevereiro de 2016, encontrou uma solução que é subtraída da minha remuneração bruta, não acrescentando custo adicional” ao CA.