Chad Madden/Unsplash
Foto
Chad Madden/Unsplash

Megafone

Este Natal, Portugal

Há magia no Natal, a magia do regresso depois de duas mãos cheias de horas e viagem. E há magia no Natal no olhar e na surpresa de quem abre cada prenda. Trabalhamos o ano inteiro à espera deste momento, destes segundos, mais que suficientes para esquecer a distância e saudade.

É Natal. Estamos a caminho de casa. Da outra casa, a original. Porque os anos passaram e esta também é a nossa casa. Apesar dos milhares de quilómetros de distância. Porque fizemos dela nossa e nela passamos agora, não somente agora, mas há muito, a vida.

É Natal. Os jornais e os cronistas do costume lançam as mãos ao céu contra o consumismo, em nome de uma sociedade mais sã, uma vida mais sã, e eu até gostava de lhes dar razão, mas o Natal é tempo de dar e quem não gosta de dar?

Passamos fins-de-semana inteiros a pensar em quem mais gostamos entre centros comerciais e mercados de Natal à procura, à espera de lhes trazer um sorriso, aquela alegria, o coração a bater mais rápido, mais forte e este tempo todo dedicado a quem mais queremos. Ansiosamente, antecipamos os abraços e o calor como se já lá estivéssemos, de volta à casa que um dia foi nossa e de onde, afinal, nunca saímos.

Dedicar o nosso tempo não é consumir, é amar e amar por antecipação, por isso perdoem-me o carinho, a ternura e a vontade de dar. Ainda para mais quando se teve a sorte e a felicidade de crescer a receber e viver todos os Natais de uma criança.

Perdoem-me não só acreditar no Pai Natal, mas também saber como o mesmo existe: basta olhar-me ao espelho agora que a barba se cobre na neve dos anos e a barriga cresce em igual proporção. O avião substitui o trenó, as asas são as renas e o Pai Natal vem mesmo a voar. Só falta acertar na chaminé. E caber na mesma.

Há magia no Natal, a magia do regresso depois de duas mãos cheias de horas e viagem. E há magia no Natal no olhar e na surpresa de quem abre cada prenda. Trabalhamos o ano inteiro à espera deste momento, destes segundos, mais que suficientes para esquecer a distância e saudade

As malas vão cheias, 38 quilos de prendas com a nossa roupa pelo meio. Ao entrar para o avião já estamos de regresso a casa ou não fosse meio Portugal a bordo, tripulação incluída e um “Bem-vindo a bordo” em bom português. O café é que ainda não, afogado numa aguadilha escura e sem memória. Mas já falta pouco. 

Já falta pouco para as rochas e para o mar, já falta pouco para os braços da minha mãe, já falta pouco para o sol na esplanada do café, para as férias e o descanso debaixo de uma árvore e uma estrela enquanto sonho com uma criança nascida há dois mil anos para nos salvar e aqui estamos nós, sãos e salvos de volta a casa.