Opinião

Riad, palco de futebol e de vergonha

Será que as diversas chancelarias se vão dar por satisfeitas e de novo os negócios de milhares de milhões lavem consciências e que com tal anúncio se sintam justificadas? Quem pode acreditar? O obscurantismo é a lei de Riad.

Um dia depois da supertaça italiana, entre Juventus e Lazio, se ter jogado em Riad, capital da Arábia Saudita, onde até há muito pouco tempo as mulheres estavam interditas de entrar nos estádios, um tribunal saudita condenou à morte cinco fulanos acusados de terem assassinado o jornalista J. Khashoggi, opositor aos métodos despóticos do novo Senhor feudal daquele país.

Enquanto os aviões e a metralha saudita matavam iemenitas no seu próprio país, o colosso de Turim e o emblema famoso de Roma iam a Riad em busca de big money para se defrontarem, bem longe da bela Itália.

No país onde os crentes não muçulmanos não têm templos para a prática da sua religião e as liberdades individuais inexistem, sobretudo para as mulheres, Juventus e Lazio foram jogar futebol fazendo de conta que estavam num país normal, “esquecendo” que estavam no país dos sabres que às sextas-feiras decepam cabeças.

Só que a normalidade de um jogo de futebol foi de imediato desfeita com o anúncio milimetricamente decidido da condenação à morte de cinco supostos sicários que terão participado no monstruoso assassinato de J. Khashoggi, sem até hoje o seu corpo ter aparecido e sem qualquer explicação plausível para esse facto.

A utilização do consulado da Arábia Saudita em Istambul para tão ominoso ato pressupõe o conluio ao mais alto nível do governo de Riad. A invenção que a vítima tinha abandonado o consulado exibindo ao mundo um vídeo de um sósia mostra o requinte do plano dos mandantes.

Depois de saberem que Khashoggi iria ao consulado buscar a documentação para poder casar com a noiva turca, isso deu tempo aos carniceiros de Riad para prepararem o crime enviando especialistas em autópsias e peritos em diluição de cadáveres.

Não admira, pois, que para tentar calar a voz do mundo que se ergueu para denunciar o horrendo crime, as autoridades sauditas tenham inventado uns tantos “criminosos”, reais, existentes ou não, com os nomes identificados ou outros e que os executem legalmente para que de uma vez por todas o rasto fique apagado e possam prosseguir os grandes negócios com o Ocidente, onde o futebol é rei de entretimento.

A Trump não o preocupa minimamente o obscurantismo do fundamentalismo sunita de Riad a roçar a jihad; a sua obstinação é vender milhares de milhões de dólares em armamento, mesmo que no reino saudita impere a mais pura crueldade em termos sociais e políticos.

A Europa da Declaração Universal dos Direitos Humanos sossega com o jogo das aparências para assim se poder deitar para o lado onde os negócios se fazem e enchem os bolsos do complexo industrial-militar.

Será que as diversas chancelarias se vão dar por satisfeitas e de novo os negócios de milhares de milhões lavem consciências e que com tal anúncio se sintam justificadas? Quem poderá crer que foram aqueles cinco? Quem os ouviu para além dos juízes escolhidos por Riad? Admitindo que estiveram na execução do crime, após serem executados quem fica a saber o que se passou? Terão sido caladas as vozes que poderiam dizer a verdade? Quem sabe? Quem pode acreditar? O obscurantismo é a lei de Riad.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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