Opinião

O amor no jornal

Todos temos minúsculas histórias de amor, mesmo que às vezes possamos não nos aperceber delas.

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Israel e Estelle, da Honduras, beijam-se enquanto se banham no rio Novillero, enm San Pedro Tapanatepec, México. O casal fez parte da caravana de milhares de sul-americanos que tentaram entrar nos Estados Unidos, em Outubro de 2018 ADREES LATIF/Reuters

O The New York Times tem uma secção chamada Amor. Bom, “Love”, no original, mas se estivéssemos a falar de um jornal nacional, seria assim mesmo: uma secção chamada Amor.

Digam lá se não é bonito um jornal diário ter uma secção chamada Amor. Dá-nos alguma leveza, enquanto percorremos páginas que nos atiram para o que de pior se vai passando pelo mundo – políticos duvidosos, tragédias ambientais, acidentes tenebrosos, pessoas com as vidas desfeitas por incidentes kafkianos dos quais não se conseguem desenredar –, saber que logo ali, mais à frente, há uma secção de Amor pronta para ser explorada.

Passado este elogio inicial, devo colocar algum gelo nesta argumentação para vos dizer que muito do que por ali está alojado não me inspira o suficiente para ir além do título. Não estou particularmente interessada em “dicas para conhecer os pais” ou “como escolher um destino de lua-de-mel” ou em descobrir as histórias de todos os que se conhecerem em sites de encontros, embora admita que pode haver ali algumas com piada. Mas, ainda assim, apesar de não me sentir tentada pelo que ali vai (e muito menos por escrever sobre a maior parte daqueles temas), a simples existência daquela secção no The New York Times dá-me alguma alegria. E conforto.

Porque, apesar de sermos bombardeados com histórias de amor em milhões de canções, livros e filmes (tantos deles de qualidade duvidosa), a verdade é que acredito que, no dia-a-dia, esquecemo-nos muitas vezes dele. Do Amor. De dizer a todos os que amamos que os amamos. Tantas vezes até ser tarde de mais. E se podemos comover-nos com um filme romântico, porque, afinal, isso é considerado normal, ainda nos atrapalha a língua quando temos de declarar que amamos alguém, seja um familiar, um amigo ou um amante.

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Beijo em Hyde Park, Londres Ralph Morse/The LIFE Picture Collection via Getty Images

O facto de o diário de referência norte-americano dedicar parte do seu espaço ao tema, assim, às claras, sem procurar um eufemismo qualquer para aquela secção, é, por isso, uma alegria. Vamos lá falar de amor.

E, atenção, que falar de amor não é só ursinhos com corações e ramos de flores e beijos desarvorados. Falar de amor também é falar de perda e saudades, de oportunidades perdidas, de separações dolorosas. E nisto, o The New York Times mostrou ser exemplar ao criar uma iniciativa que, em português, se traduz por “Minúsculas Histórias de Amor”. São histórias completas condensadas em quatro ou cinco frases, que falam da alegria e da tristeza, enviadas para o jornal pelos seus leitores. Até Outubro, mais de três mil pessoas tinham participado na iniciativa, enviando os seus curtos parágrafos, acompanhados de fotografias ou desenhos.

E estas minúsculas histórias de amor, sim, dão-me imenso gozo a ler. Há lá de tudo. A mulher que conta como acordou o marido de madrugada, a perguntar se havia chocolate em casa, sabendo que não havia, e o viu levantar-se sem uma palavra, enfiar a roupa de neve, enfrentar o temporal e regressar com algumas embalagens na mão, antes de se enfiar na cama e voltar a adormecer. A mãe que recorda como garantiu à filha que um dia voltariam a ser felizes, depois de perderem, respectivamente, marido e pai, e recorda a felicidade que sentiu quando, tempos depois, a menina lhe disse que ela tinha razão, porque eram felizes de novo. A mulher que enviou uma fotografia, acompanhada de dois homens, anunciando como na viragem do século descobriu o equilíbrio que nunca tinha alcançado, ao iniciar uma relação a três. “Eu durmo com ambos, cada um deles dorme apenas comigo”, escrevia. Os melhores amigos de anos que acabam por descobrir que são mais do que isso depois de iniciarem uma viagem através do país para irem experimentar um burrito. A geneticista que descobriu, ao fazer um teste numa conferência, que era filha de um dador de esperma e tinha seis meios-irmãos que até então desconhecia. O engenheiro que fez um gráfico para analisar a relação em que se encontrava e percebeu que era tempo de terminar quando o resultado final de tudo o que ali estava dizia “Acabar” em vez de “Ficar”.

Todos temos minúsculas histórias de amor, mesmo que às vezes possamos não nos aperceber delas. Quando a criança lá de casa, que não nos vê há dias, nos envolve em beijos e abraços demorados e nos diz “tinha tantas saudades tuas”. Quando a irmã faz aletria para te receber depois de chegares estourada de uma viagem demorada de trabalho. Quando podes dizer tudo o que te vai na cabeça, incluindo medos e inseguranças e pensamentos esquisitos, porque sabes que aquele grupo de amigas vai continuar a gostar de ti não importa o que digas. Quando te sentes tão desejada que te esqueces de tudo o que fora daqueles momentos encaras como defeitos.

Sou uma grande fã daquelas “histórias de amor minúsculas” do The New York Times. Às vezes fico a pensar no que gostaria de ler ali que me fizesse sorrir ainda mais. Teria de ser algo com alguma ironia, porque aprecio a ironia. Acho que algo assim funcionava: “Depois de ter passado toda a sua vida a ouvir como os seus olhos eram lindos, com aquela cor indefinida, como se não existisse mais nada nela além disso, o homem que finalmente a fez apaixonar-se era daltónico.” Acho que isto funcionava, sim.