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Danielle da Silva: Pode uma fotógrafa sem fronteiras mudar o mundo?

Fundadora dos Photographers Without Borders, onde fotógrafos e videógrafos se unem para apoiar projectos solidários pelo mundo, Danielle da Silva tem por lema “Do the right thing”. “As pessoas são o problema e também a solução”, diz-nos a premiada fotógrafa.

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Anna Costa

Cabelo loiro, olhos verdes e pele clara. Ainda há fotografias dessa Danielle – ou do negativo da verdadeira, da antítese da Danielle que conhecemos –, “disfarçada” para se proteger da “depressão pós 9/11” e dos ataques mais cirúrgicos que atingiram muitos filhos de pais emigrantes. “Esse momento mudou o meu mundo. Pintei o cabelo, usei lentes e tentei clarear a pele. Queria apagar-me para me sentir segura”, disse à Fugas. Hoje não sente “orgulho nenhum nisso” ("muitas pessoas tentam fazer parte e nem dão por isso"). Descobriu que a sua pele é da cor da terra – e não da cor de fezes. Tornou-se na primeira de muitos Photographers Without Borders (PWB). Procura caminhos para solucionar problemas.

Na altura sentiu “curiosidade” em perceber. “Porque é que as pessoas são assim? São mesmo más?” Formou-se em Psicologia, escavou fundo. Encontrou pontos de interrogação. “Não é assim tão simples. O comportamento humano é muito interessante. E explica a forma como nos tratámos ao longo dos últimos séculos e no presente.”

Grande ponto de interrogação para o Canadá, país onde nasceu, como “terra prometida” (basta olhar para o processo de assimilação de indígenas impulsionado pelo governo canadiano e para o recente documento de 1200 páginas que denuncia o genocídio de mulheres indígenas no país entre 1980 e 2012 que deixou o próprio Justin Trudeau “desconfortável").

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Danielle da Silva

Grande ponto de interrogação para a ONU, onde Danielle Khan da Silva eventualmente chegou ("nessa altura eu queria ser Secretária Geral das Nações Unidas!"). “Percebi que usavam as mesmas ferramentas que usaram no passado, que havia muitas soluções e comportamentos neocoloniais, perpetuando os problemas e em alguns casos fazendo ainda pior. Senti elitismo e falta de integridade dentro da organização. Conheci pessoas que não tinham suficiente experiência de vida e conhecimento para informar outros países ou outras comunidades. Por isso perpetuam-se problemas. Na altura, os projectos de desenvolvimento das Nações Unidas tinham uma percentagem de falhanço de 80%. Para mim era um indicador de que as coisas não estavam a correr bem. Gastavam-se toneladas de dinheiro em projectos de desenvolvimento. E muitas vezes os responsáveis pelos projectos viajavam e ficavam alojados em hotéis porque queriam ficar confortáveis e não queriam ficar nas aldeias.”

Na Índia, sistema de castas e de abusos à flor da pele das mulheres e das meninas do Rajastão, Danielle percebeu a diferença entre um “projecto de desenvolvimento cinco estrelas” (uma “grande escola” construída pelas Nações Unidas sem noção da distância a que moravam as crianças, obrigadas a “caminhar durante horas, correndo o risco de serem violadas ou raptadas pelo caminho") e a força de algumas fotografias que a própria tirara. “Não eram fotos incríveis. Mas quando as viram, havia pessoas a chorar, pessoas que se sentiram impelidas a contribuir com dinheiro para construir escolas. ‘Posso construir escolas em todo o lado!’ [risos]”. Angariou dinheiro suficiente para construir nove escolas. “Vi a força do storytelling. Foi por isso que o PWB nasceu”.

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Ainda não se considerava fotógrafa, mas a fotografia, essa “ferramenta maravilhosa”, cresceu exponencialmente. Fundou uma organização com a visão de partilhar histórias inspiradoras sobre pessoas e comunidades que estão a fazer coisas extraordinárias. Atraiu fotógrafos e aperfeiçoou um rigoroso código de ética. Envolveu as comunidades locais nas decisões – e não lhes impôs decisões. Desconstruiu preconceitos. Não olhou para o lado. Agiu.

Danielle tem um “problema”. Gosta de ser “destacada pelo mérito” num mundo de “barreiras sociais que não são muito faladas”. Conta que tinha um assistente e que quando chegava a uma reunião “as pessoas pensavam que ele é que era o CEO”. “E por mail tratavam-me por ‘mister Silva'”, conta a CEO do PWB, fotógrafa premiada, realizadora e oradora na última edição do National Geographic Exodus Aveiro Fest, onde foi destacada como Personalidade do Ano.

Desde 2013, a PWB estabeleceu contacto com mais de 100 voluntários com cerca de 125 missões em 54 países. O PWB ajudou a conservar dez hectares de floresta tropical em Sumatra, apoiou os esforços de reflorestamento, plantando centenas de árvores, enviou meninas para a escola na Índia, ajudou sobreviventes do tráfico humano no Quénia, apoiou a protecção marinha em Moçambique. Tem uma revista online e impressa. Todos os anos, patrocina um contador de histórias indígena para mostrar o seu trabalho no Contact, festival de fotografia norte-americano. Deixa máquinas fotográficas com as comunidades com as quais trabalham e treinam locais para que a narrativa possa ser contínua.

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Do the right thing” (simplesmente “faz a coisa certa"), pratica Danielle, 33 anos, que fala de “coisas tangíveis” num mundo em ebulição. “Vamos às raízes e estabelecemos relações saudáveis. Procuramos o fotógrafo certo com a ética certa para o trabalho certo. E amplificamos vozes.” De repente, volta à conversa – na verdade nunca chegou a sair – o tal “processo de descolonização” e de “regeneração” das culturas e das terras. “As pessoas são o problema e também a solução”, assegura Danielle, “constantemente rodeada de pessoas a fazer coisas incríveis” e talvez por isso com uma “visão mais optimista do que a maioria das pessoas”.

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Anna Costa

“Somos a mais importante geração de sempre, mas temos que actuar já. O que muitas vezes faz com que continue é pensar que a mãe natureza vai durar mais tempo do que nós todos. As nossas preocupações são existenciais porque achamos que somos superiores e que vivemos para sempre. Pessoalmente, acredito que se acabarmos como uma espécie extinta, é porque o merecemos.”