Trilho da Rocha do Chambre: uma caça ao tesouro no coração da Terceira

O percurso, com 9,3km de extensão, tem como ponto alto a visão do enorme precipício no bordo de um grande vulcão. “Lá dentro há floresta endémica praticamente intocada.”

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Paulo Pimenta
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Andamos pela Terceira em contra-relógio e Tiago Fortuna não se conforma. Tinha tanta coisa para nos mostrar na ilha – e tantos mitos para desfazer. Um deles é o de que os Açores são oito ilhas e um parque de diversões: não, a Terceira pode não ter fajãs espectaculares e lagoas de encher o olho, mas não é apenas festa.

Mais de 30% da ilha está classificada como reserva integral “e há sítios onde o homem nunca entrou”, garante Tiago, que nos quer dar uma pequena amostra daquilo que está a dizer. Natural do Porto, Tiago Fortuna está a viver há 11 anos na Terceira, onde fundou a Comunicair, uma empresa de turismo activo que se propõe dar a descobrir o melhor dos Açores.

Nesta tarde de sábado, estamos então num dos jipes da Comunicair e preparamo-nos para cortar caminho e cumprir uma versão bem mais curta do trilho da Rocha do Chambre (PRC6TER), que nos permitirá “ter uma aproximação a parte do Parque Natural da Terceira”. Os 9,3km deste percurso homologado podem exigir até quatro horas para serem cumpridos na íntegra mas nós, com o tempo contado, estacionamos nas proximidades da estação de geotermia do Pico Alto e pomos pés ao caminho.

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A cada passo que damos, Tiago, um entusiasta da Terceira e dos Açores em geral, vai explicando o que temos à frente dos olhos. Caminhamos rodeados de vários matizes de verde por todos os lados, entre espécies endémicas como o louro dos Açores, o azevinho, a tolpis azorica, a uva-da-serra. Parece que estamos numa espécie de caça ao tesouro, “à procura do que não há em mais lado nenhum” a não ser neste arquipélago.

Ao fundo, avistamos os Mistérios Negros, nome de outro trilho pedestre da Terceira, que se desenrola pela zona onde decorreu a última erupção vulcânica da ilha, em 1761. “É como se estivéssemos num Parque Jurássico”, brinca Tiago, enquanto nos embrenhamos cada vez mais nesta natureza pujante. Há vacas a pastar e uns quantos vitelos a mamar numa calma imperturbável.

Levamos uns 15 minutos a subir e a cara do tempo mudou radicalmente desde que iniciámos a marcha: o sol vai dando lugar a um nevoeiro cada vez mais denso e é nesta altura que Tiago nos explica que estamos a adentrar-nos na floresta de nuvens, um tipo de floresta húmida que, em traços gerais, “vive muito mais da humidade atmosférica do que da chuva”.

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A visão do bordo do vulcão é o ponto alto do passeio Paulo Pimenta

E eis que chegamos ao Miradouro da Rocha do Chambre, o ponto alto deste percurso. À nossa frente, um enorme precipício no bordo de um grande vulcão. “Lá dentro há floresta endémica praticamente intocada”, informa Tiago. Visto daqui, o bordo do vulcão parece um fofo tapete de musgo, tão compacta é a vegetação, e quase temos vontade de nos lançarmos em queda livre para só aterrarmos naquela espécie de nuvem verde.

O quadro é surreal: três minúsculas pessoas esmagadas pelo poder da natureza, a caldeira de um vulcão bordada a vegetação endémica e o canto da estrelinha, aquela que é apontada como a ave mais pequena da Europa. Até que um zunir mecânico nos acorda deste sonho: é um drone manobrado por um casal de franceses. Está, portanto, na hora de descermos – mas esta visão idílica já ninguém nos tira.

No caminho para as Cinco Ribeiras, onde temos encontro marcado com uma manada de vacas, ainda nos cruzamos com Harald, um turista alemão que, dois dias antes, encontráramos na Graciosa. Está, de novo, a pedir boleia, mas desta vez vamos em sentido oposto. “Não há problema”, sorri Harald, “tenho tempo”. Ter tempo é uma coisa preciosa nos Açores.

A Fugas viajou a convite da Azores Getaways