Maria Flor Pedroso demite-se de directora de Informação da RTP

Em causa estão as polémicas relacionadas com as reportagens sobre o lítio e sobre o Iscem do programa Sexta às 9. Os quatro directores adjuntos também puseram os seus lugares à disposição da administração.

,Sandra Felgueiras
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Maria Flor Pedroso (ao centro) público

Apenas duas horas antes do início de um plenário de jornalistas que tenciona discutir a polémica em torno da actuação da directora de informação da RTP sobre uma investigação que estava a ser conduzida pela equipa do programa Sexta às 9 e que levou ao cancelamento da reportagem, a administração da televisão pública anunciou que aceitou o pedido de demissão do cargo de Maria Flor Pedroso.

Em comunicado, a equipa liderada por Gonçalo Reis confirma que Maria Flor Pedroso colocou o seu lugar à disposição argumentando que, “face aos danos reputacionais causados à RTP, não tem condições para a prossecução de um trabalho sério, respeitado e construtivo, como sempre tem feito”. O conselho de administração acrescenta que, “após auscultação dos motivos apresentados pela directora e exclusivamente por esses motivos”, considera não ter “outra alternativa que não seja aceitar essa decisão”.

O PÚBLICO soube que, em carta autónoma, os quatro directores adjuntos de Maria Flor Pedroso, os jornalistas António José Teixeira, Cândida Pinto, Helena Garrido e Hugo Gilberto também puseram os respectivos lugares à disposição, como é habitual nestes casos. Ainda não há resposta da administração.

A situação de Maria Flor Pedroso tornou-se insustentável depois ter sido tornada pública, na passada semana, que tinha tido uma intervenção numa investigação em curso pela equipa do Sexta às 9 sobre “suspeitas de corrupção” no Instituto Superior de Comunicação Empresarial (Iscem), que foi encerrado compulsivamente em Setembro. A directora de informação da RTP, que também foi docente daquela instituição de ensino, admitiu perante o conselho de redacção da televisão que recomendou a Regina Moreira, directora do instituto, que respondesse às questões colocadas por escrito.

Embora tenha pedido desculpa e justificado que apenas pretendia ajudar, depois disso, a directora e alguns membros do conselho de redacção envolveram-se em discussão sobre os termos em que a primeira admitira a sua intervenção na acta da reunião com aquele órgão que representa os jornalistas da RTP.

Caso do Iscem relatado à ERC

O caso da interferência na reportagem sobre o Iscem foi dado a conhecer pela jornalista Sandra Felgueiras, coordenadora do programa, ao departamento de análise de media da ERC há uma semana, quando o regulador a chamou para a ouvir no âmbito de um processo de averiguações aberto na sequência de queixas de espectadores sobre a suspensão do programa de reportagens durante o mês de Setembro, alegadamente por ser tempo de campanha eleitoral. O programa devia ter regressado a 13 de Setembro com uma reportagem (prevista desde Julho) sobre irregularidades na concessão da exploração de lítio em Montalegre e acabou por só ir para o ar a 11 de Outubro.

Mas já na passada semana se haviam acentuado as dificuldades na relação entre a directora e a jornalista Sandra Felgueiras, quando ambas foram chamadas ao Parlamento a pedido do PSD e deram versões contraditórias. Flor Pedroso havia argumentado em comunicado que a reportagem do lítio não estava pronta em Setembro; Felgueiras contrapôs que era possível emiti-la nesse dia 13, que a entrevista fundamental nunca seria feita muito antes e que as reportagens só ficam prontas no dia da emissão ou na véspera.

Na nota que enviou às redacções sobre a demissão da directora, a administração realça a “idoneidade e currículo irrepreensível” de Flor Pedroso, que antes liderou a editoria de política da Antena 1. E deixa-lhe um elogio, agradecendo o trabalho “desenvolvido de forma dedicada, competente e séria” nestes 14 meses em que foi directora.

A equipa de Gonçalo Reis vinca que esta direcção de Informação estava a desenvolver uma linha editorial “assente num jornalismo objectivo e rigoroso, livre e independente, isento e plural” – a “matriz” do serviço público , em “absoluto contraste com a crescente tendência para um jornalismo populista e sensacionalista que [a equipa repudia] veementemente e que é imperativo combater”.

A administração remata o comunicado afirmando que vai nomear “em breve” uma nova direcção “à qual continuará a exigir a implementação das melhores práticas, para que o jornalismo feito pela RTP seja o mais complexo, o mais sério, o mais credível e o mais isento, de serviço do público”.

Flor Pedroso diz que quis “ajudar” Sexta às 9

O conselho de redacção da RTP tinha convocado para esta segunda-feira um plenário de jornalistas sobre o conflito entre a equipa do Sexta às 9, coordenada pela jornalista Sandra Felgueiras, e a directora de informação da televisão pública, Maria Flor Pedroso.

Numa reunião com o conselho de redacção na passada semana, a jornalista “acusou” – o termo é do próprio CR – a directora de informação “de violação do dever de sigilo, ao transmitir à principal visada na reportagem [sobre o Instituto Superior de Comunicação Empresarial] informação privilegiada”. O Iscem estaria a exigir aos alunos pagamentos em dinheiro vivo para a transferência dos processos dos alunos após o encerramento do instituto em Setembro deste ano, que foi decretado pela Agência de Avaliação do Ensino Superior (A3ES). Seria ainda investigada uma acusação de um arquitecto que alegava que Regina Moreira, directora daquele instituto, lhe devia dois milhões de euros.

Depois da intervenção de Flor Pedroso, o programa televisivo cancelou a reportagem. Segundo Maria Flor Pedroso, tratou-se apenas de uma tentativa de “ajudar” a investigação. As críticas de Sandra Felgueiras são rejeitadas “liminarmente” pela directora de Informação, de acordo com as actas do conselho de redacção e com o texto da posição enviada à redacção por Maria Flor Pedroso na passada sexta-feira, a que o PÚBLICO teve acesso.

A controvérsia motivou um pedido de debate de actualidade no Parlamento para a próxima quinta-feira, por iniciativa do PSD – o mesmo partido que tem insistido em falar do caso Sexta às 9 no plenário.

Numa nota enviada ao PÚBLICO, na sexta-feira, a direcção de informação da RTP explica que Maria Flor Pedroso foi docente de Jornalismo Radiofónico no instituto desde 2006. No final de uma “reunião de docentes”, no dia 8 de Outubro, foi interpelada por Regina Moreira, “dando-lhe conta de que tinha recebido vários contactos e chamadas do Sexta às 9 com um pedido de entrevista que ela não queria dar”. Numa tentativa de defender “os interesses da RTP” perante a “reiterada recusa da entrevista”, Maria Flor Pedroso sugeriu que a directora do Iscem respondesse por escrito “sem nunca a ter informado da investigação do Sexta às 9”.

Mais de 130 jornalistas com Maria Flor Pedroso

De acordo com a agência Lusa, até às 18h de domingo, mais de 130 jornalistas de diversas redacções tinham subscrito um abaixo-assinado em defesa de Maria Flor Pedroso, uma iniciativa que arrancou na sexta-feira e conta com nomes de profissionais de várias gerações e meios de comunicação, como Adelino Gomes, Henrique Monteiro, Anabela Neves, Francisco Sena Santos, Rita Marrafa de Carvalho, São José Almeida, Sérgio Figueiredo.

“Confrontados com o grave ataque público à integridade profissional da jornalista Maria Flor Pedroso, os jornalistas abaixo-assinados não podem deixar de tomar posição em sua defesa, independentemente das questões internas da empresa onde é directora de informação, que manifestamente nos ultrapassam”, referem os 133 jornalistas que subscrevem o documento. Referem que Maria Flor Pedroso é, há mais de 30 anos, uma “jornalista exemplar”, “sem mácula”, “reconhecida e respeitada pelos pares”, e uma “das mais sérias profissionais do jornalismo português”, tendo chegado “por mérito ao cargo que actualmente ocupa” – uma referência para contrariar as acusações de falta de isenção devido aos laços familiares por afinidade com o primeiro-ministro.

Entre outros elogios, sublinham que Maria Flor Pedroso é “defensora irredutível do jornalismo livre, rigoroso”, “sem cedências ao mediatismo, a investigações incompletas, ou à pressão de poderes de qualquer natureza”.