Rafael Marchante
Foto
Rafael Marchante

Megafone

À procura de Greta Thunberg

“Para vocês foi como se Greta não estivesse em Portugal”, atirou um jornalista espanhol, a bordo do Lusitânia. Nós procurámo-la, mas a activista de 16 anos é dona do seu nariz e decidiu que não queria os holofotes só para si — e isso não é mau.

“Greta esteve em Portugal dois dias, mas para vocês foi como se não tivesse acontecido nada. Porquê?”. A pergunta apanhou-me desprevenida. “Como se não tivesse acontecido nada?” O tom do jornalista espanhol era sério e eu não sabia o que lhe responder. Estávamos na carruagem-bar do Lusitânia, rodeados de alguns jornalistas que, derrotados, partilhavam bebidas. Por esta altura já todos tínhamos desistido de encontrar uma história naquela viagem de mais de dez horas e estávamos apenas a partilhar a experiência dos últimos (e preenchidos) dias.

Greta Thunberg chegou a Lisboa no início da tarde de terça-feira, 3 de Dezembro; partiu na noite de quinta. Foi recebida pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa e por jovens activistas portugueses e respondeu aos jornalistas numa curta conferência de imprensa. Estas recepções não são comuns em Portugal – para nós teve uma certa aura cerimonial. Estiveram quase todas as televisões, rádios e jornais nacionais a recebê-la, assim como alguns meios internacionais. Os directos multiplicaram-se: a sua chegada atrasou-se várias vezes, o que obrigou a ocupar horas de antena naquela manhã, mesmo que não existisse muito que dizer. Este é o nosso trabalho; estas foram as contingências.

A chegada a Lisboa foi o fim de uma viagem de mais de 20 dias, de uma das personalidades mais influentes da actualidade: a “miúda zangada” que, ao cabo de um ano de activismo, empoderou milhares de jovens que agora pedem acção aos seus governos nacionais sobre o clima. Não a íamos ignorar, tal como nenhum meio o fez. Mas finda a conferência de imprensa, o que havia a noticiar?

Greta Thunberg é uma adolescente de 16 anos que conseguiu a proeza de pôr o mundo a falar da emergência climática. Também conseguiu a proeza de atravessar o Oceano Atlântico durante Novembro, num pequeno e frágil catamarã, o La Vagabonde. Estava cansada – isso era notório – e repetiu-o por diversas vezes durante as declarações que fez à chegada. Naquela carruagem-bar, percebi, no entanto, que a cobertura da sua visita ficou aquém das expectativas de editores e jornalistas, mas isso não é sinal de uma má cobertura. Às vezes dar espaço é o melhor que um jornalista pode fazer. 

Greta Thunberg é vítima do seu próprio sucesso. Apesar de perceber que a atenção mediática que recebe é uma das facetas da exposição pública da causa que defende, joga à defensiva junto dos meios de comunicação. Pessoalmente, percebi isto na conferência de imprensa na Casa Encendida, em Madrid, antes da Marcha pelo Clima. Apesar de estar a responder rodeada de outros activistas, a maioria das perguntas (senão todas) era-lhe dirigida. Ela só respondeu ao que quis. Algumas perguntas ficaram sem resposta. Outras foram passadas aos seus colegas na luta contra as alterações climáticas: “O que é que vocês acham disto?”; “Preferia que fossem os meus colegas a responder”.

Greta Thunberg é dona do seu nariz: quando decidiu que não ia falar aos jornalistas, não o fez. Nunca nos deu muito espaço de manobra e a viagem de comboio foi só um exemplo. Em dez horas, os jornalistas não tiveram mais do que dois minutos com a activista. Do início ao fim, andámos sempre sob a sua batuta. E isso nem sempre é mau.

Não é mau porque outro dos grandes feitos de Greta foi apontar-nos uma direcção, dizer-nos o que as pessoas estão a pensar e o que as preocupa. Desafiar-nos a procurar outras vozes, mais jovens, que completem o que os cientistas dizem, que dêem um rosto humano a essas preocupações. Mudar o nosso vocabulário, que passou a incluir outros termos: agora em vez de “alterações climáticas” tendemos a preferir a expressão “emergência climática”, em consonância com o que dizem cientistas e activistas.​ E para fazer tudo isto não precisamos de andar (só) atrás dela. 

A minha resposta, naquele momento, foi atabalhoada. Foi o próprio Fernando Peinado, jornalista do El País, que conseguiu resumir a essência do que quis dizer, na peça que publicou, uns dias mais tarde: “Em Lisboa, uma capital tão tranquila e introvertida quanto ela própria, Thunberg encontrou a paz que provavelmente não encontrará em Madrid”. 

Confirmou-se. Em Chamartín, estação terminal do Lusitânia, o que a esperava eram centenas de jornalistas que correram pelas suas vidas para conseguir imagens da jovem activista. Pelo caminho, caíram, aleijaram-se e fizeram com que as crianças que lá estavam à espera de Greta chorassem. Mas não conseguiram nem um on da activista: Greta esfumou-se, tão hermética como sempre foi ao longo destes dias. Houve quem a seguisse, quando desapareceu dentro de um Seat vermelho eléctrico. Eu fiquei em terra. Mas soube depois para onde foi: para a COP25, sentar-se ao lado de outros jovens activistas, num protesto que teria passado despercebido aos olhos dos media se não fosse por causa dela.