Opinião

A oportunidade do Pacto Ecológico Europeu

Estamos perante uma oportunidade única para mobilizar a ciência e a inovação para esta agenda comum.

A capacidade de resposta e a adaptação da sociedade às alterações climáticas depende muito da confiança dos cidadãos na eficácia da narrativa política prevalecente e na força da liderança que a conduz, sendo certo que a predisposição para a mudança é cada vez maior porque também os impactos das alterações climáticas se sucedem com crescente magnitude e visibilidade. Por outro lado, as manifestações que vão acontecendo um pouco por todo o mundo em favor de políticas de combate às alterações climáticas, organizadas em particular pelos jovens, expressam uma ambição genuína e imune aos interesses instalados, atitude que é especialmente mobilizadora dos cidadãos. 

Julgo que a sociedade europeia está hoje mais preparada para aderir a uma mudança liderada pelos poderes públicos, e é neste contexto positivo que também se inscreve a decisão europeia do anunciado pacto ecológico, colocando maior pressão e exigência sobre todos os países europeus, aos quais cabe agora reforçar os compromissos nacionais na resposta aos grandes desafios ambientais e planetários. Uma liderança inequívoca da Europa deste processo de transição ecológica, visando responder ao coletivo dos cidadãos europeus, pode representar o desígnio que precisamos para uma reedificação do próprio projeto europeu e do seu papel inspirador do mundo.

É neste quadro promissor e ambicioso que interpreto o papel das missões da ciência criadas pela Comissão Europeia, e em concreto a missão de adaptação às alterações climáticas que tive o privilégio de integrar. Uma oportunidade extraordinária para se criarem dinâmicas inovadoras de envolvimento dos cidadãos europeus nas grandes opções estratégicas de desenvolvimento, apoiando programas e iniciativas determinantes para fomentar a mudança, e exortando a comunidade científica e a agenda de inovação para a transição ecológica. A oportunidade e a emergência devem obrigar-nos a delinear missões arrojadas e robustas, com efeito transformador e multiplicador.

Do ponto de vista político, parece-me importante que estas missões inscrevam e estimulem ações suscetíveis de enquadramento transversal na atividade política, percetíveis pelos Estados-membros e pelas comunidades de toda a Europa, porque representam uma qualificação efetiva dos seus contextos e do seu modo de vida, do seu bem-estar, e constituem ainda oportunidades de emprego, fomentando uma nova economia cada vez menos dependente dos combustíveis fósseis e da delapidação de recursos, com desejável impacto na qualidade de vida de todos os europeus. Todos percebemos que a redução do risco e uma adaptação rápida e capaz às alterações climáticas é absolutamente fundamental, garantindo que todos somos beneficiados, qualquer que seja o Estado-membro ou a condição do cidadão.

Por outro lado, a crise da biodiversidade é tão importante quanto a crise climática, e é o momento de mostrar que a Europa está disponível para liderar e inspirar o ritmo de ambas as agendas, entre outras escolhas, fomentando soluções baseadas na natureza para as alterações climáticas: habitats costeiros, turfeiras, florestas nativas e diversas, zonas húmidas, têm um papel importante a desempenhar para ajudar a enfrentar a crise climática. Teremos que os conservar e restaurar, reformular as políticas e avaliar o uso do solo na perspetiva da retenção de carbono e da maior resiliência dos ecossistemas face aos riscos climáticos, mas também no sentido de assegurar a conservação dos habitats para salvaguarda da biodiversidade. Estamos perante uma oportunidade única para mobilizar a ciência e a inovação para esta agenda comum.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico