Opinião

Keep calm and carry on

Para nós europeus que fizemos deste país a nossa casa foi mais um choque, mais um voto dirigido contra a casa de onde provimos. Foi a certeza da irreversibilidade do corte. Foi. Mas não temos de nos sentir assim.

Nesta quinta-feira, os britânicos votaram tacticamente, usando o voto para bloquear o que mais temiam. E o que mais temiam passou a ser Corbyn, as suas políticas “marxistas”, as nacionalizações e o aumento de impostos do seu programa eleitoral e a sua refracção à economia de mercado. E o que mais temiam era um líder fraco, sem maioria parlamentar, um líder que continuasse a fazer fraca figura internacional, um líder que reabrisse as negociações e os anos de incerta agonia que tal implicaria para o país e as suas vidas. Claro que as pessoas também votaram para não voltar atrás, para continuar por um caminho orgulhosamente só e independente da UE. 

A libra subiu, o stock market subiu, os investidores estrangeiros respiraram de alívio, e também por isso as pessoas votaram do modo como votaram.

Para nós europeus que fizemos deste país a nossa casa foi mais um choque, mais um voto dirigido contra a casa de onde provimos. Foi a certeza da irreversibilidade do corte. Foi. Mas não temos de nos sentir assim.

Para já há um “wishful thinking” de que, fortalecido por este mandato, Boris faça as escolhas mais sensatas e que não ponham em perigo a unidade do país. 

Há um “wishful thinking” de que Boris tenha jogo de cintura suficiente com Trump nas negociações do acordo que regulará as relações do RU com os EUA (visto como o prémio mais apetecido do “Brexit") e que só podem arrancar depois do dia 31 de Janeiro.

Por fim, a existência de uma oponente de Boris como Nicolas Sturgeon (a segunda grande vencedora das eleições) e ironicamente mandatada por um idêntico fenómeno nacionalista vai funcionar como um prumo da balança, já que quanto mais radical Boris se tornar com a UE mais terá Sturgeon a saltar-lhe às canelas e a exigir um segundo referendo à independência da Escócia.

Se Boris quer evitar a desintegração do Reino terá de apaziguar a vaga nacionalista escocesa que desde 2007 não tem parado de crescer e que defende que a prosperidade e o futuro da Escócia são indissociáveis do futuro europeu. Não pode também ignorar os nacionalistas norte-irlandeses (católicos) que pela primeira vez conquistaram mais votos do que os unionistas (protestantes) e que, ao contrário dos últimos, querem abandonar o RU e reunificar-se com a República da Irlanda. 

Nem pode afugentar os empresários e investidores internacionais que contribuem para que este país seja a quinta maior economia mundial.

Temos agora um período de transição de um ano a dois anos (máximo) durante o qual a relação do RU com a UE permanece inalterada; após o qual um novo acordo de comércio e de segurança entre o RU e a UE será implementado.

Há que esperar, confiando que a sensatez ainda pode vencer.