Figura da extrema-direita britânica adere ao Partido Conservador

Fundador e antigo líder da Liga de Defesa Inglesa apelou ao voto em Boris Johnson e anunciou que agora é militante dos tories. O primeiro-ministro britânico diz que “não adere às visões de Tommy Robinson”.

,Reino Unido
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Tommy Robinson foi recentemente condenado a nove meses de prisão e cumpriu nove semanas da pena antes de ser libertado Andrew Winning/REUTERS

Tommy Robinson, uma das figuras mais emblemáticas da extrema-direita britânica, aderiu ao Partido Conservador depois da vitória esmagadora de Boris Johnson nas eleições de quinta-feira, depois de já ter apelado ao voto no líder torie durante a campanha. Robinson foi acusado de ser um dos responsáveis pela deriva do UKIP para a extrema-direita ao assumir o cargo de conselheiro. 

“Ok, acabei de aderir ao Partido Conservador”, anunciou o fundador e antigo líder da Liga de Defesa Inglesa, de extrema-direita, no seu canal do Telegram, chamado Tommy Robinson News. 

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Tommy Robinson usou o seu canal na rede social Telegram para fazer o anúncio

A aproximação de Robinson, cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon, aos conservadores não é de agora. O líder de extrema-direita sempre se mostrou favorável a Johnson, e, em Novembro, fez o seu primeiro apelo ao voto nos conservadores nas legislativas. “Toda a gente deve votar em Boris Johnson”, disse aos jornalistas. “Vota em Boris, o teu país precisa de ti”, escreveu depois na rede social.

Johnson foi duramente criticado pela oposição por ter aceitado o apoio eleitoral de Robinson e o porta-voz do líder britânico disse ao Independent que o “primeiro-ministro é claro ao dizer que as políticas de divisão não têm lugar na nossa sociedade e que não adere às visões de Tommy Robinson”. 

Não foi garantia suficiente para acalmar as críticas, nomeadamente do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha. “O primeiro-ministro diz que não adere às visões de Tommy Robinson, mas também não as condenou”, disse Harun Khan, secretário-geral da organização, ao mesmo jornal. 

Os conservadores conquistaram esta quinta-feira uma vitória esmagadora, ao elegerem 365 deputados (o que lhes dá uma maioria de 78 lugares), contra 203 do Partido Trabalhista, o seu principal rival. Foi a maior vitória conservadora desde 1987, com Margaret Thatcher, e a pior derrota trabalhista desde 1935. 

A proximidade entre a extrema-direita e os conservadores é motivo de preocupação para vários académicos judeus e, numa carta aberta publicada no Guardian, antes das eleições, deixaram claro que “um voto nos conservadores é um voto num Governo de extrema-direita que representa uma ameaça existencial para todas as minorias”. “Apelamos a todos os nossos aliados na comunidade judaica que rejeitem o ódio e votem contra os tories”, referiam, numa mensagem que, claramente, não foi atendida pelos britânicos. 

Johnson diz haver “tolerância zero” para a islamofobia no partido, mas os conservadores têm sido acusados de terem nas suas fileiras quem faça comentários islamofóbicos. Pelo menos quatro ministros conservadores, entre os quais o das Finanças, Sajid Javid, participaram em acções de campanha de candidatos acusados de islamofobia, avançou o Guardian. Alguns partilharam publicações de Robinson nas redes sociais. 

“Membros do Governo conservador estarem activamente a participar na campanha de candidatos que enfrentam acusações graves de preconceito contra os muçulmanos mostra a hipocrisia de Boris Johnson ao ter prometido ‘tolerância zero'”, disse ao Guardian Nick Lowles, director executivo do Hope Not Hate.

Robinson assumiu nos últimos anos um cada vez maior protagonismo na política britânica por causa dos processos judiciais de que foi alvo pelos seus comentários e acções racistas e islamofóbicas. Apresentou-se como vítima do sistema judicial e defensor da liberdade de expressão contra o politicamente correcto, mas acabou por ser condenado a nove meses de prisão efectiva por desrespeitar os tribunais. Saiu recentemente em liberdade depois de cumprir nove semanas da sua sentença. 

Em Novembro de 2018, o líder de extrema-direita foi nomeado por Gerard Batten, recém-eleito líder do UKIP, conselheiro da formação política. O antigo líder da Liga de Defesa Inglesa é apontado como um dos responsáveis pelo UKIP ter flectido ainda mais para a extrema-direita islamofóbica e anti-imigração: passou a defender prisões exclusivas para muçulmanos e a proibição de entrarem no Reino Unido. 

As filiações no UKIP de elementos da extrema-direita aumentaram significativamente nos meses posteriores à nomeação de Robinson, de acordo com uma investigação do Guardian. Tantas que mudaram a composição da militância do partido.