Nau do Cacau, os artesãos do chocolate biológico a sul do Tejo

Anna e Marco Pedro mudaram de vida porque quiseram fazer a primeira marca de chocolate artesanal biológico em Portugal. Para a época das festas, a Nau do Cacau lançou um chocolate com especiarias de Natal, inspirado pelas origens polacas de Anna.

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Marco e Anna Pedro, os criadores do Nau do Cacau Sara Jesus Palma

É para um espaço pequeno, em Vila Nova de Santo André, na costa alentejana, que Anna e Marco Pedro trazem alguns dos melhores ingredientes biológicos que conseguiram encontrar pelo mundo para fazer, de forma totalmente artesanal, aquele que apresentam, com orgulho, como “o primeiro chocolate artesanal biológico português” – o Nau do Cacau.

Recebem a Fugas neste local, a ficar curto para a produção que já têm, onde fazem tudo os dois, da preparação do chocolate ao embalamento, da parte comercial à limpeza. Os primeiros chocolates deste projecto chegaram ao mercado em Setembro de 2017. Este ano lançaram, para a época das festas, uma novidade, o chocolate com especiarias de Natal.

Anna nasceu na Polónia onde, como em geral no Norte da Europa, o Natal cheira a uma mistura de especiarias como o cravinho, o gengibre e a canela – as que utilizaram nesta edição limitada, com chocolate de São Tomé e Príncipe (66%) numa embalagem vermelha que, tal como as outras, é desenhada por Marco (à excepção do logótipo, criado com a ajuda de um designer).

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Vêm ambos de outras actividades profissionais que nada têm a ver com chocolate. Marco era engenheiro mecânico, Anna trabalhava nos serviços administrativos de um hospital. Mas eram já consumidores de produtos biológicos e um dia, numa loja, surgiu a conversa sobre o chocolate. Explicaram-lhes que não havia chocolate biológico artesanal português e que também “não é fácil” consegui-lo.

Esse “não é fácil” foi o impulso que faltava. Colocado o desafio, decidiram lançar-se a ele. Iam tentar perceber se era ou não possível. No passado, se calhar, uma aventura destas seria bem mais complicada, mas, explica Marco, na era da Internet tudo se torna mais simples, a informação está disponível, os potenciais fornecedores são facilmente contactáveis.

Curiosamente, até a experiência de Marco como engenheiro e os seus conhecimentos de termodinâmica e química se revelaram úteis, embora, confesse, o chocolate seja um produto tão sensível que desafia todos os conhecimentos. “Por um lado é uma arte, por outro é muito técnico”, resume.

Alguns fornecedores não queriam, ou não podiam, trabalhar com um produtor de uma escala tão pequena, mas ao fim de algum tempo conseguiram encontrar os produtos com o nível que exigiam: o cacau de São Tomé e Príncipe (mais frutado, mais suave, para os chocolates um pouco menos intensos), o do Equador (com mais corpo e mais intensidade), o da República Dominicana (que usam para o chocolate de leite). Mas também a flor de sal de Tavira, o café da Colômbia, as avelãs da Turquia, a pimenta da Jamaica, tudo biológico.

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Foram aumentando o portefólio (e não lhes faltam ideias para continuar), e, pelo meio, arriscaram em algumas aventuras que possivelmente não terão continuidade, como o chocolate “preferido por nove em cada 10 zombies”, com uma embalagem cheia de zombies, e uma mistura de sementes de cacau e a alga spirulina. Divertido, foge do estilo clássico dos outros, e talvez por isso teve menos adesão do público. De resto, contam, o campeão de vendas entre todos os que já estão no mercado é o chocolate com flor de sal.

O que Anna e Pedro conseguiram com a Nau do Cacau foi ter o primeiro chocolate biológico produzido em Portugal e (outra coisa de que se orgulham) pelo “único artesão de chocolate reconhecido a sul do Tejo” – que, neste caso, é Anna. “Somos de certa forma um caso único”, diz Pedro. “Por um lado, estamos no mercado biológico, por outro estamos no mercado gourmet. Criámos uma imagem que dá para ambas as coisas. Os clientes do gourmet ficam espantados porque não há muitas coisas biológicas e os do biológico também, porque habitualmente os produtos têm uma imagem um pouco mais simples.”

Outra das ideias que surgiram entretanto foi a de criar um pequeno chocolate numa embalagem individual, a pensar em restaurantes e hotéis, que pode acompanhar o café ou ser colocado junto à cama à noite. Namoraram também a hipótese de se lançarem numa produção bean to bar (do grão à tablete, de que só existe em Portugal um exemplo, a Feitoria do Cacao, em Aveiro). Mas os custos do investimento nas máquinas necessárias poderão inviabilizar a ideia, porque tornariam o chocolate demasiado caro (neste momento, o preço de referência, que pode oscilar dependendo do ponto de venda, situa-se entre os 4,45 euros e os 4,80 para as tabletes maiores e 2,41 e os 2,57 para as mais pequenas).

Poderão, isso sim, investir numa máquina de embalamento, para ficarem mais disponíveis para se concentrarem no trabalho do chocolate. É preciso tempo quando, por exemplo, as avelãs colocadas à mão insistem em fugir para uma parte da tablete que não coincide com a janela da embalagem, contam a rir. E é preciso tempo para explorar as novas ideias que lhes vão surgindo a toda a hora nesta nova vida de artesãos do chocolate.