Pela Dinamarca rural

A leitora Manuela Santos partilha a sua experiência pela região dinamarquesa da Jutlândia.

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Espreitando por entre nuvens, um sol brincalhão de raios prateados lança uma luz envolvente e acolhedora sobre toda a paisagem que alcançamos desafogadamente, em cada curva da estrada. Não é só consequência do início do Outono é, também, pela latitude onde nos encontramos. Aqui e acolá, turbinas eólicas, numa rotação frenética, parecem agulhas bordando de verde a floresta que remata as numerosas quintas a perder de vista. Há campos em repouso, outros acabadinhos de lavrar para mostrar uma terra castanho-escuro abençoada pela maresia do mar do Norte ou pela chuva que, mesmo no Verão, sempre vai caindo.

A passarada esvoaçando rasteiramente não larga esta terra fértil e procura os bicharocos para a sua refeição matinal. Há campos cultivados e, noutros, já os rolos de palha, espalhados pela planície ou pelas pequenas colinas, aguardam armazenamento. No Inverno o clima é agreste e às vacas que hoje aproveitam bem o dia de sol nunca lhes pode faltar alimento. A planície que ladeia o nosso caminho parece uma manta de retalhos de cores variadas, retalhos de seda. Tudo está tão bem tratado e feito com rigor. Não existe lixo nem pedras fora do lugar. Alfaias agrícolas velhas ou abandonadas num canto qualquer, por aqui é coisa que não se vê. Temos saudades dos campos amarelo vivo da flor da mostarda mas isso é na Primavera, agora a beleza campestre mudou para tons acastanhados mas de modo nenhum nos deixa indiferentes. O passeio pela Dinamarca é sempre prazeroso.

Avançamos pela Jutlândia, uma das regiões dinamarquesas de pequenas cidades acolhedoras e de uma calma contagiante. É neste estado de espírito que chegamos a Ribe para admirar o seu centro histórico que, tal como em muitas outras pequenas localidades, independentemente da maior ou menor riqueza patrimonial, se encontra bem preservado e harmoniosamente integrado no seu núcleo urbano.

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Ribe

Ribe, a cidade mais antiga da Dinamarca e fundada no ano 700, foi um grande porto viking. As marcas do seu passado ali estão disponíveis para desfrute de todos. Inúmeras casas protegidas enquanto património inestimável conferem às pequenas ruas medievais um charme de contos de fada. Fazem-nos lembrar os livros de Hans Christian Andersen, célebre autor de histórias para crianças que viveu em Odense, não muito longe dali.

Como ponto de confluência espiritual, está a Catedral de Nossa Senhora. De singular arquitectura, resultante de reconstruções e ampliações feitas em séculos distintos, apresenta traços românicos, góticos, estruturas modernas e mesmo elementos decorativos contemporâneos. É, sem dúvida, muito bonita. Do alto da sua torre pode ser apreciada toda a paisagem bucólica que nos acompanhou neste dia de passeio.

A acariciar e respeitar todo este cenário, temos os dinamarqueses.  Pessoas bastante afáveis que, quando abordadas, sempre mostram um sorriso, mas distantes e sempre discretas. Não nos sentimos observados sendo estas terras de turismo mais interno do que externo. Se cuidam com grande esmero do seu espaço, se as suas vidas se desenrolam num espírito de solidariedade, também os seus mortos não são esquecidos. Oferecem-lhes jardins mimosos, extremamente bem cuidados, onde apenas pequenas cruzes de pedra erguidas sobre a relva nos fazem lembrar o significado deste lugar.

Para os apreciadores de recriação histórica de qualidade, uma constante na Dinamarca, existe, bem próximo de Ribe, o Ribe Viking Center, aberto todo o Verão com apresentação de vários eventos relacionados com o período viking.

É tão bom viajar pela Dinamarca!

Manuela Santos (texto e foto)
Blogue de viagens: Viajar para alimentar os sentidos