Esta curta (não) é sobre o jai alai. É sobre “a nostalgia” de quem viu este desporto desaparecer

Nunca foi um documentário apenas sobre o jai alai — é muito mais “universal” do que isso. “É sobre uma pessoa, uma história humana.” É sobre “nostalgia”, sobre como Leon Tevin Shepard “vive num mundo decadente todos os dias”. E foi precisamente a ideia de que há “certas coisas que nos parecem essenciais, mas que amanhã podem deixar de existir”, que cativou Daniel Soares a realizar a curta-metragem Forgotten, sobre este desporto esquecido.

O realizador de 32 anos não conhecia o jai alai até Alvaro del Val, editor do filme, lhe falar sobre o desporto tão popular no século XX, mas agora praticamente desconhecido. Daniel viajou de Nova Iorque, onde vive, para a Flórida — onde “todos os lugares ligados ao jai alai têm um ar decadente” que o atraíram: “Parecia um mundo visto pela lente de William Eggleston”, escreve ao P3.

O desporto — uma espécie de pelota basca que consiste em atirar uma bola para a parede, que deve ser apanhada pelos jogadores numa espécie de luva de vime — “é a textura da história” e foi “a porta de entrada para uma outra mais profunda”: a de Leon Tevin Shepard, “o jogador mais velho da actualidade, que começou a jogar jai alai há mais de 25 anos”. E que experienciou, na primeira pessoa, a efemeridade e “o declínio do desporto”. Desde os estádios com milhares de pessoas a gritar ao desaparecimento do público.

Os 18 minutos de filme desenrolam-se de forma lenta (“num mundo em que os cortes são cada vez mais rápidos e a capacidade de concentração mais curta, acho importante desacelerar um pouco”), com planos que poderiam ser emoldurados e retratam a preparação para o último jogo da carreira de Tevin: os treinos, a distribuição de cartazes na tentativa de chamar pessoas para assistir, até à entrada no campo para o derradeiro jogo.

“Gosto de filmes que me transportem para um mundo que não conhecia antes. Que me façam sentir algo profundo. Que me façam ter compaixão e crescer”, aponta o realizador, que em 2017 realizou uma curta de tributo aos carros vintage — e que, inesperadamente, se transformou também numa homenagem a Jordan, que "morreu a fazer o que amava". Daniel acabou recentemente de escrever o argumento para um curta de ficção que vai filmar em Portugal — "um regressar às raízes". Com Forgotten, quis “dar voz a uma pessoa que antes não a tinha”. E mostrar como é não desistir de uma arte, mesmo que não haja ninguém a ver.

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