Nuno Ferreira Santos
Foto
Nuno Ferreira Santos

Megafone

O que querem realmente os jovens?

Participar activamente é muito mais do que votar ou fazer voluntariado numa associação. Participar é ser conscientemente crítico e honesto. É fazer andar para a frente. Aumentar a participação cívica e social tem de ter como objectivo activar os jovens, envolvê-los no associativismo, capacitá-los.

Participação cívica e social é, por norma, um termo que afasta as camadas mais jovens em Portugal. A formação cívica é, aliás, na maioria das vezes, o elo mais fraco dos conteúdos programáticos nas escolas. O envolvimento cívico em Portugal é mesmo um dos mais baixos em toda a Europa, nas mais variadas vertentes, desde a participação em actividades de voluntariado ao interesse na política e à participação nos processos eleitorais.

Um estudo de 2015, encomendado pela Presidência da República, deu conta de alguns dados alarmantes relacionados com o envolvimento e a percepção dos jovens portugueses em relação a estas matérias. Em apenas oito anos, a quantidade de jovens portugueses que acreditava que a democracia funcionava bem tinha caído de cerca de um terço para apenas 17,3%. Hoje, o número não é conhecido, mas acredito que seja ainda mais baixo. No que diz respeito à participação dos jovens na vida política e associativa, o cenário repete-se. Em 2007, nas faixas etárias dos 15 aos 34 anos, apenas 13,6% participavam em partidos e 19,8% em associações. Oito anos depois, a fatia era muito menor: 3,7% e 6%, respectivamente.

Estes são, de facto, números alarmantes. Mas participar activamente é muito mais do que votar ou fazer voluntariado numa associação. Participar é ser conscientemente crítico e honesto. É fazer andar para a frente. Aumentar a participação cívica e social tem de ter como objectivo activar os jovens, envolvê-los no associativismo, capacitá-los.

Tendencialmente, procuramos sempre envolver os jovens que estão à margem da participação e não se envolvem em nada. Mas a verdade é que também temos de nos focar naqueles que têm vontade de fazer acontecer, que se envolvem nas suas comunidades escolares ou movimentos. Podemos e devemos dar-lhes as competências certas para assumirem a responsabilidade de serem dirigentes associativos na sua plenitude. Precisamos, sobretudo, de começar a ouvir os jovens, de lhes dar voz e perguntar em que é que faz sentido envolvê-los. Muitas vezes desenhamos projectos, investimos milhares de milhares de euros em programas para os jovens, mas não lhes perguntamos quais as suas necessidades, quem são os seus modelos ou como gostavam de ser abordados.

O melhor lugar para reverter esta tendência é a escola. Este é o palco para treinar o erro. Se não for aqui, dificilmente será em mais algum lugar. É importante utilizar as associações de estudantes como um veículo de transmissão de conhecimento. Nas escolas podemos errar, fazer bem feito, crescer e lutar pelos direitos da comunidade. Cascais é um bom exemplo, com um programa de capacitação juvenil que pretende colocar em rede, até 2020, todas as associações de estudantes das escolas secundárias do concelho. O objectivo é tornar Cascais na Capital da Participação Cívica e Social para as camadas jovens mas, principalmente, envolvê-los através daquilo que mais gostam de fazer.

É urgente ouvir os jovens, respeitar as opiniões e traçar uma estratégia conjunta para o envolvimento. Estamos a atravessar um período de grandes crises mundiais — a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial (senão mesmo a maior de sempre) e a maior crise ambiental — e os jovens têm estado na linha da frente no combate a ambas.

Nenhuma das duas vai ter solução se não trabalharmos como um todo. E isso só se consegue se educarmos para a participação. Participar activamente também é fazer mudanças de hábitos e assumir responsabilidade pela não-participação dos que nos rodeiam. Temos o dever de incutir isto na geração jovem.