Opinião

O Ponto G do tecno-totalitarismo

Quando se trata da implantação de um sistema que é uma porta escancarada para um mundo ultra conectado, ultra automatizado, ultra vigiado onde a liberdade individual não terá mais qualquer significado, não somos chamados a consentir porquê?

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Grande é a excitação com a nova tecnologia de ponta, o 5G! A aproximação do momento em que as cidades e depois todo o território serão invadidos por “objectos bem identificados” de acesso à internet móvel de quinta geração não tem gerado mais do que entediantes polémicas entre operadoras e regulador quando, na realidade, se trata de uma tecnologia que veio para mudar a vida de todos.

As ondas de rádio de frequência mais alta que este sistema pressupõe permitirão o aumento do número de dispositivos electrónicos ligados à net em simultâneo, bem como uma velocidade de utilização substancialmente mais rápida. Mas isso só será possível quando as antenas transmissoras forem colocadas em todas as esquinas (estima-se a cada 250 metros) e bem mais perto do solo. Para além dos efeitos negativos na paisagem urbana, no património e no sector imobiliário pois existirão pessoas que não quererão estas antenas junto de suas casas, importa sobretudo avaliar os possíveis efeitos negativos para a saúde do aumento da radiação electromagnética e, já agora, para o ambiente, dado que implica a produção de milhares de antenas e a obsolescência de milhões de telemóveis. Ora estes efeitos não estão suficientemente estudados e, só por isso, o princípio da precaução constante de directivas internacionais na área do ambiente e da saúde deveria ser assumido por todos: cidadãos e Estado.

Todos estamos familiarizados com o absurdo desta frase: Clique abaixo para consentir a utilização desta tecnologia e o processamento dos seus dados pessoais para estas finalidades. 

Mas quando se trata da implantação de um sistema que é uma porta escancarada para um mundo ultra conectado, ultra automatizado, ultra vigiado onde a liberdade individual não terá mais qualquer significado, não somos chamados a consentir porquê?

Sempre que se discute este assunto ouve-se a mesma conversa: a tecnologia é neutra tudo depende da utilização… Pergunta-se, alguém alguma vez viu esta dita tecnologia em si mesma? Na verdade ela só pode ser avaliada pelos resultados, pelo modo como está a transformar o mundo e as nossas vidas e, quanto a isso, estamos conversados…

Uma empresa interessada no ramo apregoa assim as maravilhas do 5G: Consegue-se imaginar a fazer o download de seis filmes em alguns segundos e transmitir ao vivo um vídeo com os seus amigos e colegas – tudo ao mesmo tempo? Isso irá acontecer muito em breve.

Como!? Serão ainda humanos estes clientes-consumidores?

A UE afirma no seu plano para a implementação do 5G que esta será a chave para a Europa competir no mercado global com resultados esperados de 225 bilhões de euros até 2025! Acenando com esta cenoura bem grande, como ripostar? No caso português é visível o impulso dado pelo governo ao “capitalismo das plataformas electrónicas”, com Lisboa a ser um verdadeiro laboratório de ensaio.

E o que dizer do medo ocidental sobre o controle chinês deste sistema? Não fica claro que o 5G será sempre uma séria ameaça à segurança internacional seja lá quem for a dominar?

Quem decide e quem avalia, afinal? Ao longo da história temos visto como os donos da técnica estão sempre acima dos desapossados – ganham os peritos e os que detêm o poder económico, sabendo-se que actualmente o domínio é das empresas de controlo de dados tanto públicos, como privados. A digitalização das nossas vidas não é um pesadelo do futuro, é já uma realidade, e esta realidade está cheia de paradoxos que ajudam a confundir as opiniões.

O capitalismo aperfeiçoa-se através da tecnologia com o objectivo de obter mais dados usando-os, sobretudo, para fins comerciais, mas isso só é possível com a captura das preferências de cada um ligado em rede e, claro está, todos vão dando o seu consentimento pois o que o sistema fez em primeiro lugar foi dedicar especial atenção aos pontos fracos de uma sociedade cada vez mais narcísica e infantilizada sempre em busca de um momento de fama no mundo global e digital.

Vejamos, por exemplo, o que a dita “internet das coisas” fará por nós, transformados também em coisas. Ao nível das fábricas, das empresas e dos serviços em geral, o 5G vai aumentar a vigilância, nada escapará ao mandante que saberá ao segundo como as máquinas, e os homens, estão a comportar-se e qual a solução que é dada pelo algoritmo para aumentar a produção; no campo da energia será facilitado o controle dos produtores e dos consumidores, facilitando assim a eficácia do sistema cada vez mais lucrativo; na saúde aplica-se o mesmo que nas fábricas mas facilita-se ainda mais o caminho para a robotização; nos media e indústrias de entretenimento será possível saber a cada momento o que o público deseja, condicionando assim as notícias e os lazeres ao mais apelativo e comercial; ao nível da mobilidade, o sistema 5G proporciona a automatização das viaturas sem necessidade de seres humanos, bem como a vigilância total das estradas e das ruas evitando, através dos seus sistemas e câmaras instalados, qualquer distúrbio.

Mas a monitorização dos comportamentos não virá só, trará consigo a possibilidade de condicionar esses mesmos comportamentos. Trata-se, definitivamente, da assunção da mega máquina, o sonho totalitário tornado realidade, algo que poderemos apelidar rapidamente como “tecno-fascismo”.

O que nos resta então? Perante este assustador panorama de uma quase total interiorização do modelo pela sensação incutida de que não há alternativa, importa reforçar o debate informado e o que ainda nos resta de humanidade, acreditando que, por enquanto, as máquinas ainda têm botões ou sistemas que podem ser desconectados e, antes que seja tarde demais, aplicar toda a nossa sensibilidade e criatividade para conseguirmos viver cada vez mais sem elas.

Foram sempre poucos os que lutaram pela liberdade e esses bem que terão de sobreviver sem net, pois: The revolution will not be digital!