Trump ordenou evacuação de Seul a meio da tensão com a Coreia do Norte, diz livro

A troca de insultos entre Washington e Pyongyang voltou, ainda que sem a intensidade de 2017, e os Estados Unidos pediram para esta quarta-feira uma reunião do Conselho de Segurança sobre o lançamento de mísseis pelo regime norte-coreano.

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Pyongyang entenderia a ordem de Trump como sinal de que um ataque preventivo se aproximava LUSA/Sarah Silbiger / POOL

A tensão entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte estava ao rubro e qualquer passo em falso seria interpretado como indicador de preparações para uma guerra. E, nessa altura, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou aos seus conselheiros mais próximos que os familiares dos soldados norte-americanos em Seul saíssem do país. 

Caso os conselheiros de Trump tivessem respeitado a ordem, Pyongyang teria encarado a decisão como sinal de que um ataque preventivo norte-americano se aproximava. O regime norte-coreano poderia optar por ser ele a reagir primeiro e Seul está à distância de milhares de peças de artilharia norte-coreanas, ameaçando seriamente a população de 25 milhões da capital sul-coreana — é uma das grandes peças da estratégia de dissuasão contra o Sul. 

O Presidente deu a ordem depois de ter perguntado aos seus conselheiros o porquê de Seul estar tão próxima da zona desmilitarizada (50 km), mas foi ignorado. E, depois de ver o general Jack Keane ser entrevistado na Fox News, disse à sua equipa de segurança nacional: “Quero que se retirem os civis norte-americanos da Coreia do Sul”. Trump foi alertado para os riscos dessa decisão, mas o Comandante Supremo reafirmou a ideia: “Avancem com isso”.

É uma das revelações do livro Trump e os seus Generais: os Custos do Caos (Trump and His Generals: the Cost of Chaos), da autoria do jornalista norte-americano Peter Bergen, especialista em assuntos militares e de segurança e conhecido por ter sido o primeiro jornalista a entrevistar Osama bin Laden, em 1997.

O livro foca-se na impetuosidade de Trump na condução da política externa e como se tem relacionado com a mais alta hierarquia das Forças Armadas dos Estados Unidos, juntando-se a outros, como o de Bob Woodward, Medo. E chega às bancas esta terça-feira, num momento em que os insultos entre Washington e Pyongyang estão a voltar, ainda que estejam longe do nível de hostilidade de 2017.

Na terça-feira passada, Trump voltou a chamar “Rocket Man” ao líder norte-coreano, Kim Jong-un, depois de Pyongyang ter lançado um novo míssil. “É por isso que lhe chamo Rocket Man”, disse Trump aos jornalistas à margem do encontro de líderes da NATO, em Londres. “Ele gosta de lançar mísseis, não gosta?”. Pyongyang já realizou 13 lançamentos de mísseis desde Maio

O regresso da alcunha de Trump a Kim não caiu bem nos corredores do poder da capital norte-coreana e a resposta não tardou a chegar pela voz de uma figura chave do regime. A primeira vice-ministra dos Negócios Estrangeiros, Choe Son Hui, foi citada pela agência de notícias norte-coreana chamando “tonto” a Trump e que “não é possível reprimir o descontentamento pelas declarações inapropriadas feitas num momento sensível pelo Presidente Trump”. 

Em 2017, Trump e Kim envolveram-se numa guerra de insultos no Twitter e a tensão entre os dois países atingiu uma tensão que não se via há décadas. Em causa estavam os consecutivos testes balísticos e nucleares realizados pela Coreia do Norte, ignorando as resoluções condenatórias e as sanções impostas pelo Conselho de Segurança. E à troca de palavras seguiu-se um período de lua-de-mel em que o diálogo voltou a ser o caminho

Trump e Kim reuniram-se cara a cara por três vezes, primeiro em Singapura, em 2018, a segunda em Hanói, no Vietname, em Fevereiro deste ano, e a terceira na zona desmilitarizada na coreia, em que o chefe de Estado norte-americano pisou solo norte-coreano - foi o primeiro Presidente dos EUA a fazê-lo. Mas, entre sorrisos e apertos de mão, as negociações não ultrapassaram o impasse: Pyongyang quer o levantamento total das sanções a par e passo com a desnuclearização, enquanto Washington diz só levantar as sanções depois de a desnuclearização estar confirmada. 

O recente lançamento de míssil levou os Estados Unidos a marcar uma reunião do Conselho de Segurança para esta quarta-feira, relegando para depois a discussão sobre os direitos humanos na Coreia do Norte, defendida por pelo menos oito dos 15 Estados-membros do órgão internacional. Washington detém a presidência do Conselho em Dezembro.

A reunião acontece depois de Pyongyang ter terminado as negociações e dado um prazo para que recomecem: 31 de Dezembro. Acusa Washington de ter feito jogo diplomático para ganhar tempo — acusação muitas vezes esgrimida contra o regime norte-coreano — e caso as negociações não forem avante, então, diz Kim, a Coreia do Norte vai seguir “um novo caminho” no início do ano: os programas nuclear e balístico de longa distância poderão ser retomados.