Comboios a vapor regressam à linha do Vouga

Câmara de Águeda e CP querem dinamizar o turismo ferroviário na linha do Vouga e ser referência internacional nos comboios a vapor. Para Dezembro estão previstas três circulações com as carruagens históricas do Vouguinha a serem rebocadas pela velha locomotiva Mallet E214 alimentada a carvão.

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Nos dias 14, 15 e 21 de Dezembro um comboio a vapor vai voltar a circular na linha do Vouga, 19 anos depois de ali se ter ouvido pela última vez o silvar de uma locomotiva. A CP vai realizar duas circulações comerciais e uma exclusiva para funcionários da empresa entre Aveiro e Macinhata do Vouga (o mesmo percurso que é realizado pelo Vouguinha durante o Verão).

Os bilhetes estão à venda para os dias 14 e 21 e custam 30 euros para adultos e 16 para crianças.

Jorge Almeida, presidente da Câmara de Águeda, disse ao PÚBLICO que este é um primeiro teste para um projecto mais vasto que passa por fazer da linha do Vouga uma referência internacional dos comboios a vapor. “Temos a única via estreita que está a funcionar no país e temos um espólio ferroviário muito valioso na Macinhata e em Sernada, tudo com material de via estreita, que importa valorizar e dar a conhecer”, disse.

O autarca diz que estão a trabalhar para que as viagens em comboio a vapor sejam realizadas de forma regular, pelo menos durante o Inverno, já que a Autoridade Nacional da Protecção Civil tem levantado obstáculos à circulação da locomotiva a carvão com receio que as faúlhas possam atear incêndios.

Embora a exploração do comboio seja feita pela CP, a Câmara de Águeda associa-se com apoio logístico, animação a bordo e organização das visitas à secção museológica de Macinhata do Vouga.

“As pessoas que visitam o museu ficam surpreendidas com o material que ali está exposto”, diz Jorge Almeida. Isto apesar de as locomotivas, carruagens, vagões, automotoras e outros veículos estarem amontoados num espaço exíguo que não permite aos visitantes apreciarem devidamente as peças de museu e fotografá-las. Por isso, o município de Águeda vai investir entre 400 mil a 500 mil euros na construção de um segundo pavilhão no museu da Macinhata para acomodar devidamente o espólio e acrescentar-lhe alguns veículos que têm estado praticamente esquecidos nas oficinas de Sernada do Vouga.

O autarca quer que a economia da região gire também em torno dos comboios históricos e do museu ferroviário. E não tem dúvidas que as circulações a vapor serão um êxito pois só na semana passada, durante uma marcha de ensaios para formação de maquinistas, que não foi publicitada, havia cerca de 90 trainspotters a fotografar o comboio. Por outro lado, a Câmara de Águeda tem sido inundada com telefonemas de nacionais e estrangeiros a quererem saber quando começam a circular os comboios a vapor.

Jorge Almeida quer que, à semelhança do Jardim Zoológico, do Portugal dos Pequeninos, ou do Oceanário, também o comboio histórico do Vouga seja uma das actividades que a crianças portuguesas experimentem pelo menos uma vez na vida. Daí que as escolas sejam um dos segmentos de mercado para este projecto.

O autarca diz que esta aposta na ferrovia é “absolutamente consensual” no concelho de Águeda e que empresários, comerciantes e a própria oposição camarária estão alinhadas com este desígnio.

A locomotiva Mallet E214 que vai ser a estrela das próximas viagens funciona a carvão, ao contrário da do comboio histórico do Douro, cuja caldeira foi transformada para queimar gasóleo, por ser mais barato. Em ambos os casos o efeito é o mesmo: vapor a sair da chaminé, mas os entusiastas da ferrovia valorizam a autenticidade do cheiro a carvão, que é enfiado à pazada pelo fogueiro para a fornalha da locomotiva.

Esta máquina foi construída em 1923 pelo fabricante alemão Henschel & Sohn e enviada para Portugal como indemnização da I Grande Guerra. Circulou nas linhas do Corgo (Régua – Chaves) e do Sabor (Pocinho – Duas Igrejas) tendo sido desafectada em 1989. Foi recuperada há dois anos nas oficinas de Contumil, no Porto.

Mas poderá não ser a única a circular no Vouga. O presidente da CP, Nuno Freitas, está a procurar apoios para desenvolver um projecto para pôr a circular no Vouga também as locomotivas E97, E113, E143 e E162 fazendo daquela linha um museu vivo de vapor que lhe daria visibilidade à escala mundial.