Navios que param nos portos europeus são o 8.º maior poluidor da União Europeia

Estudo revelado esta segunda-feira indica que o peso das emissões provenientes dos navios que pararam nos portos portugueses é maior do que a frota total de veículos ligeiros de passageiros existentes nas oito maiores cidades nacionais em 2013.

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Um navio de cruzeiro da Mediterranean Shipping Company em Veneza, em 2009 Reuters

Os navios que param nos portos da União Europeia emitiram, em 2018, mais de 139 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). Os dados constam de um estudo revelado esta segunda-feira pela Federação Europeia para os Transportes e Ambiente (T&E), de onde se retira ainda que, se as emissões destes transportes entrassem nas contas nacionais de cada país europeu, eles integrariam a lista dos dez maiores poluidores, ocupando a 8.ª posição, logo a seguir à Holanda.

A nível individual, a frota da Mediterranean Shipping Company (MSC), com a emissão de 11 milhões de toneladas de CO2, também ocuparia a 8.ª posição dos dez maiores poluidores, imiscuindo-se entre várias fábricas de carvão e a a Ryanair, que seria o 10.º maior emissor de CO2 na União Europeia, se as emissões provenientes da aviação também entrassem nas contas dos países.

Ainda na recente resolução da Comissão do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança Alimentar sobre a COP25, aprovada pelo Parlamento Europeu no final de Novembro, se alertava para o facto de o sector dos transportes ser “o único que registou um aumento das emissões desde 1990”, exigindo-se que houvesse uma redução das emissões provenientes da aviação e da navegação que, segundo as previsões ali apresentadas, devem continuar a aumentar, até 2050, entre 300% a 700% no primeiro caso e entre 50% a 250% no segundo.

No estudo agora revelado da T&E, de que a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável faz parte, relembra-se que a nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já fez saber que pretende agir no sentido de incluir as contas da navegação no total de emissões da União Europeia, e essa posição, defendem os autores do relatório, tem de ser a única a seguir, caso contrário, “os compromissos da Europa com o Acordo de Paris continuarão incompletos e por cumprir”.

Segundo o documento a que o PÚBLICO teve acesso, a contribuição para a poluição atmosfera dos navios que operam nos portos europeus “pode ser maior do que a de todos os veículos de passageiros da Europa”, tendo crescido 19% desde 1990. A informação obtida a partir da recolha de dados de várias fontes oficiais leva a T&E a afirmar que o CO2 emitido pelos navios que se abasteceram na Holanda, Bélgica, Noruega, Letónia e Estónia, em 2018, “foi maior ou comparável ao CO2 emitido pela frota total de veículos ligeiros de passageiros nesses países”.

Em Portugal, e comparando as emissões de navios de 2018 com a frota de veículos registada em 2013, conclui-se que os primeiros lançaram mais CO2 para a atmosfera do que a totalidade dos automóveis existentes nas oito maiores cidades do país (Lisboa, Sintra, Vila Nova de Gaia, Porto, Cascais, Loures, Braga, Matosinhos), sendo a navegação responsável pela emissão de 2,9 milhões de toneladas de CO2 e os automóveis por 2,8 milhões de toneladas. No universo dos países da União Europeia, Portugal aparece como o 13º com mais emissões provenientes da navegação (a Holanda, por causa do grande porto de Roterdão, é o país que aparece em 1.º lugar, com 19,9 milhões de toneladas) e no 5.º lugar quando se analisa quanta dessa navegação serve para transportar combustíveis fósseis. Os dados mostram que 25% de todas as emissões alocadas a Portugal pela T&E corresponde a esse tipo de transporte.

Em linha com a T&E, a Zero defende, em comunicado, que as emissões provenientes da navegação (e também da aviação) deve entrar nas contas das emissões da União Europeia, “para que o transporte marítimo possa contribuir de forma justa para o esforço de descarbonização da economia”. O fim da subsidiação a este sector e um maior controlo na construção dos navios (uma vez que eficiência prevista no design não é compatível com as emissões reais, segundo o mesmo estudo), com a transição gradual para as energias renováveis, são alguma das medidas propostas pela T&E, que propõe ainda a criação de um fundo, que coloque um preço sobre o carbono emitido, e que seria utilizado na reconversão do sector para se tornar menos poluidor.

Quando a COP25 entra na sua última semana, em Madrid, um outro estudo revelado esta manhã, pela organização não-governamental Carbon Disclosure Project (CDP), com base em inquéritos realizados aos fornecedores de grandes cadeias de comércio, indica que mais de mil milhões de toneladas de emissões de gases com efeito de estufa seriam poupadas se os principais fornecedores de apenas 125 multinacionais aumentassem em 20% o recurso a energias renováveis.