Opinião

Homenagem a Calouste Gulbenkian

De bolsa em bolsa, de diploma em diploma e de ousadia em ousadia, durante duas décadas detive o privilégio de ter sido estudante universitário graças, sobretudo, ao legado filantrópico doado por Calouste S. Gulbenkian.

"Em memória dos 150 anos do nascimento de Calouste Sarkis Gulbenkian, cuja generosidade, consubstanciada no importante legado filantrópico doado à sociedade portuguesa para fruição pública, tornou possível os primeiros anos da minha longa e multidisciplinar formação académica em diferentes instituições universitárias francesas – generosidade esta de que muitos outros estudiosos de diferentes áreas da actividade intelectual têm vindo igualmente a usufruir, incluindo certamente alguns dos actuais quadros da instituição a que o inolvidável filantropo deu o seu nome. Da mesma maneira que, graças à atribuição de sucessivos subsídios de investigação de terreno, permitiu, há cerca de cinquenta anos, a realização do levantamento do património musical tradicional da região do Alentejo, sem o qual não teria sido possível a elaboração deste pequeno texto.

Texto que no seu tempo de vida, talvez Calouste Gulbenkian também tivesse gostado de ler e de meditar. De meditar como é que o estudo científico das sonoridades com que os povos alentejanos trabalhavam, sentiam, amavam e sofriam deu origem a uma problemática tão ousada quanto ousadas terão sido as suas iniciativas profissionais e acções filantrópicas concretizadas ao longo da sua vida.

Em meu nome, bem como em nome de todos os que de alguma maneira se sentem agradecidos e reconhecidos pela grandeza da sua generosidade,      

Onde Quer Que Esteja um Bem-Haja Calouste Sarkis Gulbenkian.”

Este texto constitui um pequeno extrato do epílogo de uma obra actualmente no prelo, O Som d’Além Tejo, com a qual pretendo encerrar um longo processo de reflexão académica numa matéria bastante específica do pensamento científico contemporâneo. Em consequência, traz-me à memória a sua fase inicial, quando em 1965 me foi outorgado o primeiro diploma universitário, na respectiva área de estudos, pelo Instituto de Musicologia da Universidade de Paris-Sorbonne.

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Assim sendo, remonta há mais de 50 anos a origem da situação em que, do ponto de vista académico, adquiri a condição de precursor deste campo de estudos entre nós, nas suas vertentes sociológica e antropológica, e isto dada a inexistência institucional do mesmo nas universidades portuguesas de então. Este facto liberta-me, obviamente, de poder ser acusado de alguma imodéstia académica, tanto mais que esta competência foi adquirida pelo privilégio de ter beneficiado, durante cinco anos sucessivos, de uma bolsa de estudo e de múltiplos subsídios de investigação da Fundação Calouste Gulbenkian.

De qualquer maneira, estou em crer que na actualidade, a rememoração desta singular ocorrência não deixará de provocar uma certa surpresa, e até mesmo alguma perturbação, nos meios intelectuais do país relacionados com este campo de estudos. Interessa assim o seu registo para memória futura.

Reservando outras considerações a este respeito para um trabalho autobiográfico em elaboração, julgo contudo importante esclarecer que ao longo do processo acima referido me questionei frequentemente sobre a utilidade social da sua própria pesquisa científica, o que só raramente mereceu a atenção dos investigadores europeus da área.

Prosseguindo nesta última ideia, aproveitei a ocasião para a abordar no texto do post scriptum da versão da minha tese em língua inglesa, texto este que, de toda a evidência, poucos terão tido a oportunidade de conhecer. E efectivamente, ao estabelecer um último balanço relacionado com a proveniência geográfica, valia e caracterização dos títulos mais representativos do imenso corpus bibliográfico apresentado, considerei importante evidenciar que se este trabalho académico não tivesse tido nenhum outro mérito, pelo menos tinha patenteado em termos de pensamento musicológico – pensa-se o que é “música” como se pensa qualquer outra faceta da realidade cultural ou social – a maneira como a comunidade científica internacional tem vindo a reflectir (ou procurado tornar inteligíveis) os fenómenos convencionados como sendo “musicais”. 

Na verdade, tendo em conta a origem dos documentos coligidos, poder-se-á facilmente constatar que o trabalho intelectual dos estudiosos americanos é neste, como em muitos outros campos de reflexão, bastante diferente do que os investigadores europeus produzem. Por razões relacionadas com o próprio peso da história cultural de uns e de outros, é possível aludir-se efectivamente a duas correntes de pensamento com características próprias: a do pensamento musicológico americano, alinhada pela corrente antropológica do pensamento difusionista, e a do pensamento musicológico europeu, na esteira da corrente do pensamento evolucionista.

Quer dizer que, se de uma maneira empírica, é fácil reconhecer na actualidade esta diferença a propósito do modo como nos EUA os grandes mentores do campo económico e/ou financeiro reflectem e encontram soluções para os problemas da sociedade americana, é no entanto na produção científica da área da música que – para grande surpresa certamente de muitos, incluindo grande parte dos profissionais da própria área – esta mesma diferença se revelou sempre a partir dos longínquos anos 30 do século passado.

A pertinência desta constatação tem como referência a problemática de diversos trabalhos publicados nesta década por alguns estudiosos da comunidade científica americana no campo da aculturação, com incidência no domínio específico da música: Melville Herskovits, George Herzog e Mieczyslaw Kolinski.     

Estas considerações remetem, assim, para a minha vivência académica, uma vez que aquando da apresentação, em 1966, do primeiro acervo de documentação relativo ao património tradicional do Alentejo, foi-me sugerido abandonar este trabalho na medida em que na opinião da orientadora da dissertação (C. Marcel-Dubois) que então preparava na Escola dos Altos Estudos da Sorbonne, o fundo colectado já se encontrava “aculturado”.

Recusando a sugestão por revelar um posicionamento ideológico contrário ao da postura científica, a continuação das minhas investigações passou então por se focalizar nas questões inerentes à transformação do referido património, na esteira dos trabalhos elaborados, entre outros, pelos cientistas sociais norte-americanos atrás mencionados.

Constrangido a mudar de orientador, o tema desta primeira tese acabaria por ser aceite por uma outra personalidade (Jacques Chailley), sob a condição de serem os próprios textos musicais a patentearem a sua “aculturação”, o que de certa maneira constituiu a resposta académica adequada a esta minha primeira ousadia!

Ousadia esta que, numa perspectiva pessoal, não se deveria limitar ao estudo das questões de natureza estritamente musical mas supunha, igualmente, a prática de uma abordagem alicerçada num conjunto de conceitos pluridisciplinares que, pela sua complexidade e dada a escassez de tempo, não me foi então possível concretizar.

Assim sendo, a elaboração deste segundo trabalho passou igualmente pela sua inscrição, em 1976, na Universidade de Estrasburgo e uma vez mais as divergências com o orientador (Marc Honegger) não tardaram em aparecer, neste caso relacionadas com a especificidade do método utilizado para a sua validação científica.

Efectivamente, dado que o mesmo se apoiava na análise de um corpus homogéneo de textos musicais, o seu aprofundamento deveria passar pela exploração estatística dos seus parâmetros, quer de natureza musical, quer de natureza social. Porque graças à utilização do “teste de associação de variáveis”, seria possível estabelecer uma relação objectiva entre as variáveis do campo sociológico e as variáveis do campo musical.

Contudo, apesar de me apoiar uma vez mais nos trabalhos de vanguarda dos estudiosos norte-americanos e inclusive de os poder ultrapassar neste género de análise, a exposição desta minha postura científica foi presenteada pelo meu orientador com a inteligibilidade disciplinar da época: “O que é que você consegue explicar com os números e com a sua estatística que não consiga explicar com palavras?!” (sic).

Era o convite ou mesmo a imposição da tradicional “narrativa literária” na elaboração do texto académico, narrativa adjectivante de que enfermam normalmente os estudos no campo da música e que, com alguma ironia, já tinha levado um dos nomes mais ilustres da elite intelectual do Collège de France (Roland Barthes) a propor o desafio de alguém falar de música sem nunca utilizar um só adjectivo!

Assim sendo, estava criada a situação do meu regresso a Paris, tendo então postulado em sociologia, na Universidade de Paris-Nanterre, o tema desta segunda tese sob a orientação de um eminente teórico da área: Henri Mendras.

Em consequência, o estudo científico de uma das morfologias musicais do espaço alentejano deteve a singularidade de ser o primeiro e, por insólito que pareça, o único a proporcionar em 1982, no campo da sociologia da música – um campo de estudos inexistente nas universidades francesas –, a obtenção do diploma francês de maior prestígio académico, o “doctorat d’État”, dada a extinção deste grau académico dois anos depois.

Em suma: de bolsa em bolsa, de diploma em diploma e de ousadia em ousadia, durante duas décadas, entre 1962 e 1982, detive assim o privilégio de ter sido estudante universitário graças, sobretudo, ao legado filantrópico doado por Calouste S. Gulbenkian. 

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