Como o tabaco pode deixar “cicatrizes brancas” no cérebro

Cientistas na Noruega estudaram cicatrizes brancas no cérebro de indivíduos entre os 50 e os 66 anos e perceberam que podem ser mais prejudiciais do que se julgava.

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Manchas brancas no cérebro humano (assinaladas a azul) NTNU

Já se sabia que o tabaco podia causar “cicatrizes brancas” no cérebro. Contudo, uma equipa de investigadores da Noruega achou que o que se conhecia sobre este processo não era suficiente. Como tal, o grupo analisou o cérebro de centenas de pessoas entre os 50 e os 66 anos. Conclusão: estas cicatrizes são mais prejudiciais do que se pensava.

O tabaco, a hipertensão e a idade avançada estão entre os factores de risco que podem causar lesões no cérebro designadas “hiperintensidades da substância branca”, conhecidas como cicatrizes brancas. A substância branca faz parte do sistema nervoso central e localiza-se por baixo do córtex. “A enxaqueca também está associada às hiperintensidades da substância branca”, assinala Asta Håberg, investigadora da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e a coordenadora do trabalho publicado na revista científica NeuroImage.  

De acordo com Asta Håberg, as hiperintensidades da substância branca estão associadas – por exemplo – a alterações ligeiras ou à degradação total da mielina (uma espécie de capa protectora dos neurónios), assim como à modificação ou perda completa de axónios (prolongamentos dos neurónios). “Em certos casos, há uma total perda de tecido e um buraco é preenchido com fluido extracelular, mas isto é muito raro”, refere a investigadora.

Neste trabalho, a equipa de Asta Håberg usou ressonâncias magnéticas para estudar cérebro de 873 indivíduos entre os 50 e os 66 anos. Ao todo, 397 indivíduos tinham cicatrizes brancas.

Através das ressonâncias magnéticas, viu-se que quanto maior era a quantidade de hiperintensidades da substância branca maiores eram as mudanças causadas no cérebro. Além disso, as alterações provocadas pelas cicatrizes ocorriam na micro e na macroestrutura do cérebro fora da área das lesões, sobretudo no córtex, onde está massa cinzenta. Como tal, concluiu-se que estas cicatrizes eram um “um importante indicador clínico da saúde do cérebro” e que podem ser mais prejudiciais do que se pensava.

“Os efeitos destas manchas brancas espalham-se através da superfície do cérebro e aumentam em volume”, destaca Asta Håberg num comunicado da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia.

Embora se saiba que o tabaco ou a hipertensão são factores de risco, os cientistas referem que ainda desconhecem por completo por que razão estas cicatrizes aparecem no cérebro. “Esta é a grande questão: o que é que iniciará o processo?”

Mas por que é o tabaco uma das causas? De acordo com Asta Håberg, a substância branca no cérebro tem um menor fluxo sanguíneo do que a massa cinzenta. “Aí, o tecido poderá ser mais sensível a mudanças nas paredes dos vasos sanguíneos devido ao tabaco ou à hipertensão”, explica.

Está tudo ligado

Sobre as consequências destas cicatrizes, Asta Håberg apenas salienta as causas nas pessoas com 70 ou mais anos: “O sinal eléctrico não será propagado como era antes.” Nos casos mais graves, partes da conectividade cerebral são mesmo perdidas. Afinal, todos os processos cerebrais são um resultado da colaboração de muitas regiões do cérebro. 

Agora, a equipa vai seguir os mesmos indivíduos através de outras ressonâncias magnéticas para ver que factores clínicos levam ao aumento das hiperintensidades da substância branca ou o que pode parar o seu desenvolvimento, como o uso de um medicamento para a hipertensão, deixar de fumar, fazer mais actividade física ou ficar deprimido.

Quanto aos conselhos para se evitarem estas cicatrizes brancas, Asta Håberg sugere: “Deve manter o seu cérebro o mais saudável possível, como ter a hipertensão controlada e não fumar.”  

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