“Fala português!” Artigo académico mostra falta de preparação de universidades para estudantes brasileiros e timorenses

O trabalho inclui testemunhos de vários estudantes oriundos do Timor e do Brasil que se queixam de professores que criticam a linguagem que usam, as traduções que lêem e lhes pedem mesmo para começar a “falar português”.

,Universidade do Porto
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Acolhimento aos estudantes estrangeiros em 2018 na Universidade do Porto PAULO PIMENTA

As universidades portuguesas não estão preparadas para o actual boom de alunos estrangeiros oriundos de outros países de língua oficial portuguesa como é o caso do Brasil e de Timor. O alerta é de Juliana Chatti Iorio, uma investigadora brasileira a viver em Portugal há 20 anos, e uma das autoras de um artigo recente sobre as falhas no acolhimento destes estudantes internacionais.

O trabalho, publicado na Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, resulta de dois projectos de pesquisa e inclui testemunhos de vários estudantes oriundos do Timor e do Brasil. Ao todo, foram feitas mais de 50 entrevistas em profundidade e recolhidas 449 respostas de inquéritos. Em comum, há queixas sobre a falta de “apoio efectivo e afectivo na chegada ao país”, devido à falta de sensibilização dos professores para as dificuldades que os alunos enfrentam e casos em que professores se viram para alunos brasileiros e lhes pedem para “falar português”.

“Eu estava usando um termo da psicologia que é usado no Brasil e o professor disse ‘fala em português’. Eu disse que estava falando e ele disse ‘não, isso aí é brasileiro, fala português correcto'", é um dos exemplos dados por uma aluna de 24 anos que em 2014 escolheu Portugal como destino de intercâmbio. 

“Ainda há muito a ser feito, como uma maior atenção às dificuldades de brasileiros e timorenses com o português de Portugal”, lê-se nas conclusões do artigo académico que Juliana Chatti Iorio assina juntamente com Sílvia Garcia Nogueira (Universidade Estadual da Paraíba, Brasil).

Resultados não surpreenderam 

Em entrevista à agência Lusa, Juliana Chatti Iorio, que trabalha no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) e Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa, disse que não ficou surpreendida com os resultados. Nota, porém, que não tem queixas sobre o seu próprio acolhimento anos antes.

"Quando entrei para o mestrado, em 2003, havia cinco estrangeiros na minha sala. Era outra realidade. Hoje, há cursos em Portugal que têm mais estudantes estrangeiros do que portugueses, e eu penso que muitas faculdades ou institutos não estavam preparadas para isso”, disse. 

“Não me refiro só à logística, mas sobretudo à compreensão das diferentes culturas que pretendem receber. Se estão abertas para receberem estudantes de diferentes culturas, os professores, funcionários, enfim, a comunidade docente e discente tem que estar aberta para conhecer e procurar entender estas diferentes culturas”, defendeu.

Juliana Chatti Iorio admite que muita coisa tem sido feita para atrair os estudantes internacionais.“Algumas [universidades] já têm núcleos de estudantes internacionais (muitas vezes, núcleos de estudantes brasileiros, africanos, etc), os departamentos de relações internacionais começam a estar mais preparados para dar repostas, sobretudo as que tangem às burocracias exigidas aos estudantes que vêm de outros países”, reconheceu.

Mas a investigadora diz que falta trabalho ao nível das relações humanas. “Devido mesmo ao choque de culturas, acaba por ser um problema, uma vez que muitos funcionários e professores não conhecem a cultura desses alunos e muitos desses alunos também não conhecem a cultura em Portugal”, defendeu. 

"Portugal não dá o devido valor à língua"

No artigo lê-se ainda que “a não-aceitação da língua portuguesa falada e escrita por esses estudantes, bem como os casos de discriminação sofridos em sala de aula por parte de alguns professores, evidenciou que ainda muito trabalho deverá ser feito para desconstruir a representação de que o português é imune ao racismo e possui uma predisposição para o convívio com outros povos e culturas”.

A investigadora explica que, à chegada, os alunos brasileiros depararam-se com algumas dificuldades que não estavam à espera, nomeadamente ao nível da compreensão do português. “Muitas vezes, os próprios professores não aceitam a língua portuguesa falada e escrita no Brasil, discriminando mesmo o seu uso em sala de aula e não permitindo o uso de livros cuja tradução seja feita no Brasil”, disse.

Nesse sentido, prosseguiu, “a discriminação é notada quando um professor se vira para um aluno brasileiro e diz, por exemplo, ‘fala português!’". “Portugal não dá o devido valor à língua portuguesa a partir do momento em que permite o uso do inglês em sala de aula, que não luta pela afirmação da quinta língua mais falada no mundo e a partir do momento em que possui muito mais ferramentas em inglês para acolher os estudantes Erasmus do que para acolher os estudantes lusófonos”, considerou.

E, acrescentou, “ainda age como se fosse a “metrópole” a ditar as regras do uso da língua portuguesa às suas “colónias”, quando inferioriza a maneira como a língua portuguesa é utilizada pelos outros países lusófonos”.