Crianças que vivem em bairros pobres e perto de fast-food têm maior probabilidade de serem obesas

Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto avaliou de que forma o ambiente onde se vive influencia a obesidade infantil. Estudo mostra que crianças que vivem mais perto de restaurantes de “fast-food” têm 30% mais probabilidade de serem obesas.

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O estudo é o primeiro do género realizado em Portugal ricardo campos

As crianças que vivem em zonas residenciais mais desfavorecidas e mais perto de estabelecimentos de “fast-food” tem uma maior probabilidade de serem obesas. As conclusões fazem parte de um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), que quis avaliar de que forma o ambiente onde se vive influencia ou não a obesidade infantil. Quase 30% das crianças portuguesas tem excesso de peso ou obesidade.

O grupo de investigadores utilizou os dados da avaliação aos sete anos de 5203 crianças da coorte Geração XXI — um estudo longitudinal que acompanha, desde 2005, cerca de 8600 participantes que nasceram nas maternidades públicas da Área Metropolitana do Porto (Porto, Gondomar, Matosinhos, Valongo, Maia e Vila Nova de Gaia). “Além de perguntarmos informação clínica, medirmos o peso e a altura, temos a preocupação de recolher informação acerca do local onde vivem”, explica ao PÚBLICO a investigadora Ana Isabel Ribeiro.

“O trabalho tinha como objectivo perceber se existiam diferenças geográficas na distribuição da prevalência da obesidade na área metropolitana [do Porto]. E se essas disparidades geográficas — que depois confirmámos que existiam — poderiam dever-se a factores ambientais que considerámos serem mais facilmente modificáveis por vários tipos de decisores envolvidos”, adianta a primeira autora do estudo Hotspots of childhood obesity in a large metropolitan area: does neighbourhood social and built environment play a part?.

A análise permitiu perceber que a prevalência média de obesidade na Área Metropolitana do Porto está nos 15,4%, mas em duas zonas encontraram valores superiores. Um dos hotspots fica na intersecção das freguesias de Guifões, Santa Cruz do Bispo e Custóias, com uma prevalência de obesidade de 20,1%, e o outro na intersecção das freguesias de Sobrado e Valongo, com uma prevalência de 26,7%.

“Acreditávamos que existiam desigualdades, mas não tínhamos a noção da magnitude das diferenças. É uma diferença muito grande para uma área geográfica supostamente coesa do ponto de vista administrativo”, salienta Ana Isabel Ribeiro, referindo-se ao valor de 26%.

O passo seguinte foi avaliar o que poderia justificar estas diferenças. A proximidade de locais de venda de alimentos ultra-calóricos e pouco nutritivos aumentaria a probabilidade de obesidade? E a proximidade de equipamentos desportivos e espaços verdes poderia ter o efeito contrário?

Analisaram o possível impacto de oito variáveis ambientais na zona residencial. Apenas duas mostraram diferenças estatísticas relevantes: a privação socioeconómica do bairro e a proximidade de restaurantes “fast-food” (neste caso, a uma distância de 400 metros). “Quem vive em zonas residenciais mais desfavorecidas e em maior proximidade de estabelecimentos de ‘fast-food’ tem uma maior probabilidade de obesidade”, diz a investigadora do ISPUP.

“O resultado mais impactante que vimos”, destaca Ana Isabel Ribeiro, foi o relacionado com esta última variável. “As crianças que vivem mais perto de estabelecimentos de ‘fast-food’ têm cerca de 30% mais probabilidade de serem obesas. É a leitura da força desta associação”, refere.

A investigadora explica que a mesma análise foi feita novamente, usando uma distância maior: 800 metros. “Manteve-se a tendência, porém o resultado não foi estatisticamente significativo. Pode ter a ver com vários factores, um deles o facto de as crianças não terem autonomia para se deslocarem distâncias muito longas.”

Quanto à variável da privação socioeconómica, que mede a composição social dos bairros, mostrou outro valor de percentagem que também “está associada ao aumento significativo da probabilidade de obesidade”. “A evidência nacional, e de outros países, diz que zonas mais pobres são mais poluídas, têm menos acesso a equipamentos de saúde, são mais inseguras”, explica.

Sensibilizar decisores políticos

Ana Isabel Ribeiro afirma que o estudo, que já foi publicado na revista especializada International Journal of Epidemiology, “chama a atenção” para o facto de a obesidade ser um problema de saúde pública “que não pode ser visto só como do domínio da saúde”. “Estes factores não são modificáveis pelos decisores da saúde. São-no por decisores do ambiente, do urbanismo. Envolve uma acção mais multissectorial.”

“Se queremos diminuir o que chamamos de desigualdades em saúde, elas eliminam-se actuando sobre os grupos de maior risco. O que tentámos fazer foi identificar estes grupos de maior risco. Numa situação em que é preciso usar os recursos financeiros e humanos de uma forma mais eficiente, isto pode ser útil em termos de definição de prioridades”, aponta.

A investigadora espera que o estudo “permita sensibilizar os gestores e decisores portugueses” numa área que ainda é embrionária no nosso país. “No Reino Unido, Holanda, Estados Unidos há muito trabalho sobre esta questão dos chamados ambientes obesogénicos. Era importante para nós que pelo menos este estudo fosse lido por quem tem algum controlo sobre este tipo de factores e era interessante ver algum tipo de acção.”

“Aqui, a acção mais eminente diz respeito a esta questão do controlo da disponibilidade deste tipo de opções alimentares em torno das zonas residenciais, das escolas”, sugere.

Algumas cidades europeias têm planos para limitar a abertura de novos restaurantes “fast-food” a menos de 400 metros das escolas. A possibilidade de avançar com esta proposta para Portugal foi um dos temas discutidos em Março no Congresso da Ordem dos Nutricionistas.

Numa entrevista em Maio ao PÚBLICO, a directora do Programa Nacional para a Alimentação Saudável, Maria João Gregório, revelou que uma das propostas que fizeram à Câmara Municipal de Lisboa foi avançar com um mapeamento da oferta alimentar em torno das escolas da cidade, de forma a fazer uma análise e diagnóstico da realidade e ponderar eventuais medidas.