Análise

A França tem medo

O que faz mover as pessoas é o que pensam da sua vida. Os políticos conhecem o dilema. Devem estar em sintonia com os eleitores. Se vão contra as suas percepções, arriscam-se ao desastre eleitoral.

Na sexta-feira, o Le Monde mostrava um cartaz das manifestações de Paris: “J’ai peur” (tenho medo). A greve geral em França levanta uma actualíssima questão: a percepção que os franceses têm da sua sociedade é muito distante da imagem que as estatísticas dão. A greve tem como detonador as pensões de reforma. Mas, para ganhar a batalha da opinião, apresenta-se como uma “greve por procuração”, no pressuposto de que pode cristalizar todos os descontentamentos e frustrações dos franceses.

A greve não seria apenas reveladora de uma crise social, escreveu o Le Monde: “[Os franceses] vivem uma crise existencial que se manifesta pela precaridade social e económica, uma precaridade que toca tanto o sector privado como o público (…) e que se traduz numa crise de confiança.”

Deixemos a greve e interroguemos essa “crise existencial”. Acabam de ser publicados dois estudos curiosos. O primeiro é o barómetro anual Fracturas francesas, edição de 2019, realizado pelo instituto Ipsos-Sopra Steria; o segundo é o livro França Retrato Social, do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos (INSEE), 2019.

Comecemos pelas “fracturas”. É patente o pessimismo: 73% dos franceses estão persuadidos de que o país está em declínio. E o pessimismo traduz-se em desconfiança, sublinha o relatório do Ipsos. Apenas 21% afirmam “que é possível confiar na maioria das pessoas”, contra 79 que pensam o contrário. Há uma desconfiança absoluta nos políticos: para mais de 90%, eles defendem os seus próprios interesses. A excepção são os autarcas. E as instituições de que mais se desconfia são as que derivam de eleições: deputados, parlamentos, Governos e partidos. Aquelas que merecem confiança são a escola, o hospital, o Exército ou a polícia. 

Para 76% dos inquiridos, as noções de esquerda e direita estão ultrapassadas. Apenas 19% crêem que esta clivagem seja ainda relevante. Nenhuma outra clivagem substitui esta enquanto estruturadora da cena política. Passemos ao tema democracia. Para 63% dos inquiridos, “a democracia é o melhor dos sistemas”; mas 36% opinam que “outros sistemas políticos podem ser tão bons como a democracia”. Entre estes, 86% exprimem um apelo a “um chefe”. Sociologicamente, são “franceses modestos”, na maioria operários ou que se identificam como pertencendo a “meios desfavorecidos”.

Lendo o conjunto das respostas a variados temas, da imigração à globalização, o politólogo Gérard Grunberg assinala a radicalização de uma clivagem social mais profunda, a que diferencia os operários das outras categorias sociais. Entre 2017 e 2019, esta clivagem agravou-se. “A radicalização dos operários e a sua proximidade cada vez maior da Frente Nacional [de Marine Le Pen] modificam profundamente a composição social da esquerda e, por isso, retiram à clivagem esquerda-direita o seu significado social histórico.” Os operários são a única categoria que maioritariamente (65%) considera que Marine Le Pen “é capaz de governar o país”.

O estudo do INSEE combina indicadores objectivos e subjectivos e tem uma dimensão temporal de 40 anos, o que permite comparar a situação da França com o que dela pensam os franceses. Recorro a uma análise do sociólogo Olivier Galland, director de estudos no CNRS. “Os franceses estão persuadidos de que os seus filhos terão um futuro menos bom que eles conheceram, de que o seu nível de vida se degrada e são cada vez menos os que consideram satisfatório o seu estado de saúde.”

O nível de vida médio melhorou regularmente entre 1975 e 2016. No gráfico, é uma curva ascendente. Outra coisa é a percepção dessa evolução, que não cessa de se degradar. Uma impressionante curva descendente. Em 2016, apenas um quinto dos franceses tinha o sentimento de que a situação continuava a melhorar. “Esta progressão não foi feita em detrimento dos mais pobres nem foi acompanhada pelo aumento das desigualdades”, sublinha Galland.

“Os indicadores de mobilidade social e de nível de vida mostram (com algumas nuances) uma clara melhoria da situação dos franceses desde o fim dos anos 1970.” A fluidez social “progrediu fortemente”. A imobilidade social diz respeito a uma minoria: em 2015, 65% dos homens e 71% das mulheres ocupavam, com efeito, uma posição social diferente da do pai ou da mãe (no caso das mulheres). Em relação a 1977, hoje é muito maior a probabilidade de um filho de operário ou empregado chegar ao estatuto de quadro.

“A metáfora do ascensor social deve ser interpretada no sentido de que continua a subir mas a sua velocidade deixou de acelerar (no caso dos homens). Esta estagnação da imobilidade social diz sobretudo respeito a empregados e operários qualificados, em que 43% dos filhos ocupam, em 2015, a mesma posição dos pais em 1985 — mas 40% deles ocupam uma posição mais elevada, profissões intermédias ou quadros, contra 23% em 1977.” No caso das mulheres, a taxa de mobilidade vertical mais que duplicou desde 1977.

Acontece que a percepção que os cidadãos têm da sua situação é frequentemente outra. A ansiedade tem muitas razões, a começar pelo medo da despromoção social. Na última década, houve um “clímax apocalíptico” sobre as classes médias. Na campanha eleitoral francesa de 2012, a extrema-direita denunciava o “martírio” das classes médias. Hoje, cresce a angústia das “classes modestas” que se dizem votadas ao “desprezo” pelos governantes. Os “coletes amarelos” foram uma eloquente manifestação. O sistema político tem um grave problema com as “classes modestas”.

Os políticos conhecem o dilema. Devem estar em sintonia com os eleitores. Se vão contra as suas percepções, arriscam-se ao desastre eleitoral. Mas os discursos que colam às queixas reforçam as falsas percepções. É mais fácil a vida dos populistas. Quem tem razão? Macron, que denuncia o pessimismo dos franceses? Ou os que o acusam de viver numa “bolha” e ignorar a realidade?

Em 2008, um instituto alemão anunciou a retracção da classe média alemã. A classe média está em declínio na Alemanha foi um título que correu o mundo. Se a classe média alemã está em declínio, como estarão as outras? Em 2011, o Roman Herzog Institut, de Munique, desmentia aquela tese e anotava: “Como se fala muito na iminente diminuição da classe média, cada vez mais pessoas acreditam nisso e o medo é exacerbado. Como uma profecia auto-realizável [self-fulfilling prophecy] as reportagens fazem nascer um medo pânico de perda do estatuto.”

A ansiedade existe e é uma implacável armadilha.