Editorial

Lisboa não fica na Cisjordânia

Por uns minutos, Lisboa foi tratada como um colonato na Cisjordânia onde não existem direitos e prevalece a lei do quero, posso e mando.

O acontecimento pode ser uma simples nota de rodapé na memória destes dias, mas vale a pena levá-lo a sério: ao vedarem o acesso aos jornalistas portugueses a uma conferência de imprensa conjunta num hotel de Lisboa, o primeiro-ministro israelita, Benjamim Netanyhau, e o secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, fizeram prova de uma arrogância e de um desprezo inaceitáveis pelo país que os acolheu durante umas horas.

Já não se trata de discutir a violação de uma lei da República que garante aos jornalistas o direito de informar; trata-se, sim, de denunciar e censurar os seus comportamentos, que transformaram o território nacional numa zona ausente de soberania e de dignidade própria. Por uns minutos, Lisboa foi tratada como um colonato na Cisjordânia, onde não existem direitos e prevalece a lei do quero, posso e mando.

O que está em causa não apenas é uma violação flagrante da Constituição, que garante “o direito dos jornalistas, nos termos da lei, ao acesso às fontes de informação”. Nem sequer o livre arbítrio dos dois dirigentes políticos em escolher que jornalistas cabem ou não cabem nas conferências de imprensa que organizam. Se por acaso levassem essa reunião para uma das suas embaixadas, o que estaria em causa seria apenas a falta de cortesia ou um sinal de desrespeito que confina o país ao papel de agente subalterno que serve de palco, mas está impedido de actuar.

A partir do momento em que ambos se reúnem num hotel e convocam uma conferência de imprensa, não a podem abrir apenas aos jornalistas das suas comitivas ou aos correspondentes da “imprensa internacional”. O respeito pelo país que lhes abriu, e bem, as portas, a lei ou um mínimo de consideração e sensibilidade pelo impacte que a sua passagem por Lisboa causou entre nós excluía liminarmente essa proibição de entrada aos jornalistas portugueses.

O desconforto perante esta atitude no Ministério dos Negócios Estrangeiros é justificável. Portugal não pode perfilar-se como um país figurante onde dá jeito aterrar a cada passo para que depois os visitantes se portem como lhes der na gana – ou tratem de defender os seus interesses. O protesto do Sindicato dos Jornalistas ou a queixa que a direcção editorial da agência Lusa vai levar à Entidade Reguladora da Comunicação Social serve exactamente para sinalizar que esse trânsito não pode ser feito como se o país fosse um deserto onde não há uma réstia de identidade nacional e soberania.

Nada disto vai ter consequências, obviamente. Mas o pior que podia acontecer era ver a soberba israelita e americana a passar por Lisboa sem que ninguém denunciasse o vício e lhe apontasse o dedo.