Editorial

As dores da têxtil e os dramas da economia

Nenhuma economia desenvolvida na era da globalização aguentava o peso que a indústria têxtil e do vestuário tinha em Portugal há poucas décadas.

A associação que reúne as empresas da indústria têxtil apresentou esta quarta-feira uma projecção sobre o seu futuro que nos convoca para uma discussão que vai muito para lá dos seus interesses particulares – implica também uma visão sobre o perfil da economia e do próprio país. O que esse futuro anuncia revela uma indústria que continuará a aumentar o seu volume de negócios e as suas exportações, mas ao mesmo tempo assistirá à ruína de 2000 empresas e à destruição de 28 mil postos de trabalho.

Na aparência, parece haver uma contradição entre a conquista de mais facturação e a perda de mais emprego, o que levará muita gente a suspeitar que no horizonte se perfila um agravamento da já de si disfuncional distribuição de rendimentos entre trabalho e capital. Na realidade, porém, pode não ser exactamente assim. A previsão da indústria pode até ser uma boa notícia para a economia e para o país.

Nenhuma economia desenvolvida na era da globalização aguentava o peso que a indústria têxtil e do vestuário tinha em Portugal há poucas décadas – chegou a valer um terço do total das exportações. Depois dos acordos para a liberalização do comércio internacional do sector, a indústria nacional foi objecto de uma profunda reestruturação e em 20 anos perdeu cerca de metade dos seus postos de trabalho – são 130 mil actualmente.

Mas ao mesmo tempo que decaíam em emprego, as empresas modernizaram-se, reajustaram-se, deixaram de fabricar bens de reduzido valor acrescentado e apostaram em produtos inovadores como os têxteis técnicos. Foi por isso que, depois de bater no fundo, a actividade das empresas voltou a acelerar depois de 2009 e hoje o seu volume de negócios e de exportações é o mais alto de sempre. Foi, claramente, um caso de reinvenção obrigatória, que acabou por dar resultados.

Por muito que seja idílico acreditar nesse mundo tranquilo e estático do passado, a economia renova-se e a indústria tem de se adaptar a essa mudança. Empresas sustentadas por mão-de-obra intensiva e barata como as que povoavam o sector há 20 anos desapareceram ou estão em vias de desaparecer sem deixar saudades.

O caminho da economia portuguesa só pode ser esse, até porque a criação de valor em empresas modernas, com tecnologia e inovação, acaba por libertar recursos para a criação de emprego mais qualificado em outras áreas da economia. Numa era em que o discurso político dominante abomina o lucro e suspeita da iniciativa privada, é bom que estas verdades elementares das sociedades mais prósperas e mais justas sejam recordadas. O caso da têxtil está aí para as discutirmos.

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