O asteróide Benu está bem vivo: a prova está nas poeiras que expulsa

Em Janeiro e Fevereiro, a sonda OSIRIS-Rex captou partículas de um a dez centímetros a serem expulsas do asteróide. Esta semana a revista Science conta toda a história.

Trajectórias de partículas expulsas pelo asteróide Benu. Crédito: Lauretta et al./Science

E se tivéssemos uma câmara de vigilância a espreitar um asteróide do nosso sistema solar? É praticamente isso que acontece no asteróide Benu. No final de 2018, a sonda OSIRIS-REx entrou na órbita deste objecto com 500 metros de diâmetro e as suas câmaras têm reportado o que lá se passa. Agora, num artigo publicado na revista científica Science confirma-se oficialmente que o asteróide expulsa partículas da sua superfície. 

Há cerca de 800 mil asteróides no nosso sistema solar, mas apenas uma dúzia está classificado como activa. Os asteróides activos são pequenos corpos que têm órbitas típicas de asteróides, mas estão a perder massa, como a ejecção de poeira.

Em Dezembro de 2018, a OSIRIS-REx entrou então em órbita de Benu (nome, em português, de uma ave na mitologia egípcia), que tinha sido seleccionado para esta missão da NASA (entre outros motivos) por causa das suas semelhanças com outros asteróides activos, segundo o artigo da Science. Devido à sua proximidade à Terra – está a cerca de 300.000 quilómetros, mas pode passar mais perto –, Benu está classificado como um asteróide com um potencial risco para a Terra, mas não é um risco imediato. Os cientistas estimam que tem uma em 2700 possibilidades de embater no nosso planeta no final do século XXI.

No início deste ano, através da sonda, percebeu-se logo que este asteróide expulsava partículas para o espaço. “Esta é uma das maiores surpresas da minha carreira científica”, admitia Dante Lauretta, investigador principal da missão, à revista norte-americana The Atlantic em Março, quando estes resultados foram anunciados. Dante Lauretta é um dos autores do artigo na Science.

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O asteróide Benu tem 500 metros de diâmetro NASA/Goddard/Universidade do Arizona

“As partículas ejectadas da superfície do asteróide foram observadas depois da entrada da sonda em órbita de Benu”, assinala agora ao PÚBLICO Guy Libourel, investigador da Universidade de Côte d’Azur (em França) e um dos autores do estudo. E conta: “Esta descoberta causou uma grande surpresa na equipa da missão que, nessa altura, estava num encontro em Tucson, no Arizona. Contra todas as expectativas, viu-se que Benu é um asteróide activo.”

Vejamos então o que foi observado. Até à entrada da OSIRIS-REx na órbita do Benu em Dezembro, já se tinha tentado detectar perdas de matéria de Benu quer em observações na Terra quer das aproximações da sonda ao asteróide.

Para este estudo, analisaram-se expulsões de poeiras que decorreram em Janeiro e Fevereiro deste ano. A 6 e 19 de Janeiro e a 11 de Fevereiro, as câmaras da OSIRIS-REx mostraram que partículas entre um e dez centímetros estavam a ser expulsas do asteróide. Isso acontecia durante a nossa tarde na Terra, entre as 15h e as 18h, em áreas que não tinham características geológicas semelhantes ao resto da superfície de Benu.

A 6 de Janeiro as poeiras saíram do hemisfério Sul. Já a 19 de Janeiro e 11 de Fevereiro isso aconteceu perto do equador do asteróide. “Estas partículas levaram à formação de um enxame de meteoros. Mesmo assim, não foram suficientemente individualizados para causar uma chuva de meteoros na Terra”, explica Guy Libourel.

Como tudo acontece?

Quanto à origem desta actividade, o cientista refere que ainda não se percebeu bem. O mais provável é que resulte de impactos de micrometeoritos, da fracturação térmica ou da desidratação de certos minerais à superfície de Benu.

Guy Libourel faz ainda questão de dizer que, desde 2010, a descoberta de asteróide activos na cintura de asteróides (entre Marte e Júpiter) mudou a nossa percepção sobre esses objectos. “Enquanto os asteróides activos são normalmente identificados por perdas de massa maiores do que as da superfície de Benu, esta investigação sugere que há uma perda de massa contínua dos asteróides activos”, indica. “Esta descoberta é importante e ajuda-nos a compreender a evolução dos asteróides, as suas possíveis erosões, assim como a origem de materiais voláteis, como a água, na Terra.”

Num comentário ao artigo científico também na Science, Jessica Agarwal (do Instituto Max Planck para a Investigação do Sistema Solar, na Alemanha, e que não fez parte do trabalho) refere mesmo: “Benu mostra que – da perspectiva da Terra – ele é um asteróide aparentemente inactivo que pode abrigar dinâmicas complexas de novos impactos na sua superfície ou até mesmo alimentar a poeira interstelar.”  

O grande objectivo da missão OSIRIS-REx é recolher amostras de rochas da superfície de Benu e trazê-las para a Terra. Neste momento, estão a iniciar-se os ensaios para a recolha dessas amostras, que deverá acontecer a partir de meados do próximo ano.