Seguro alerta para os partidos “exploradores do medo”

Sem nenhuma ligação à política há quase cinco anos, o ex-secretário-geral do PS fala da emergência de novos partidos no Parlamento e deixa reparos aos partidos tradicionais.

António José Seguro está afastado da vida política há quase cinco anos
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António José Seguro está afastado da vida política há quase cinco anos Miguel Madeira

Afastado da vida política há quase cinco anos, o ex-líder do PS, António José Seguro, pronunciou-se nesta terça-feira sobre a emergência de novos partidos no Parlamento, deixando avisos: “É preciso ter cuidado com os partidos ‘exploradores do medo’ que se aproveitam dos problemas sociais.”

Foi no programa A Rede Social, da TSF, que António José Seguro comentou a chegada do Chega e o Iniciativa Liberal ao Parlamento, e concluiu que "os partidos tradicionais têm de dar resposta aos problemas das pessoas”.

“Estamos a assistir um pouco por toda a Europa à emergência de novos partidos e essa emergência traz consigo partidos de tipo diferente. A base oratória é a mesma, que é a necessidade de mudar e percebe-se isso quando os partidos tradicionais falham nas suas respostas”, disse o ex-líder do PS, que não faz qualquer intervenção pública sobre temas de actualidade desde que perdeu as primárias no PS para António Costa, em 2014. A sua única intervenção pública desde então ocorreu em Março de 2016, quando lançou um livro sobre A reforma do Parlamento português” - falava no final da sessão intitulada “A Europa, a Casa da Democracia”, que decorreu no Agrupamento de Escolas Ribeiro Sanches, em Penamacor, sua terra natal, no distrito de Castelo Branco. Em Abril deste ano, Seguro quebrou o silêncio de quatro anos e meio para falar sobre o Brexit a estudantes de uma escola também de Penamacor.

Na conversa com o jornalista Fernando Alves, o ex-dirigente nacional do PS sublinhou, no entanto, que é preciso “distinguir aqueles que são os partidos que trazem, de facto, uma renovação, e que visam substituir os partidos tradicionais. Isso aconteceu em Espanha com o Podemos e com o Ciudadanos (apesar de ter baixado bastante) [nas recentes eleições gerais, perdendo 47 deputados]. Aconteceu em França com o partido do Presidente Macron”. E prossegue: “Mas há outros fenómenos que são os partidos que eu designo como ‘exploradores do medo. Isto é: que aproveitam os problemas sociais que existem, e que são graves, mas para acusar, designadamente, os imigrantes como responsáveis por esses problemas. E aí é que é preciso ter cuidado”.

Perante esta realidade, António José Seguro pergunta: “Qual é a melhor resposta para afastar esses ‘exploradores do medo”? Os partidos tradicionais têm de dar resposta aos problemas das pessoas”.

Na entrevista à TSF, o antigo ministro-adjunto de António Guterres fez um apelo a um investimento na"qualidade da democracia” e defendeu novas práticas políticas e um “investimento muito grande na transparência”. E deixou pistas. “Quem gere dinheiros públicos, quem está à frente de juntas de freguesia até à Comissão Europeia, tem de ser exemplar. Irrepreensível”, defende, lançando um apelo ao combate às desigualdades.

“O que nós hoje verificamos é que as desigualdades têm vindo a aumentar. Aumentam cada vez que aumenta a riqueza, o que significa que há uma distribuição desigual, aponta o professor convidado da Universidade Autónoma de Lisboa e do Instituo Superior de Ciências Sociais e Políticas, deixando um alerta: “Esse é um problema que se a política não resolve, alguém se vai encarregar de resolver. E isso é a maior ameaça a par da corrupção”.

 Andar de chapéu na mão

Sendo Seguro um regionalista e tendo incluído na sua moção de estratégia à liderança do PS em Junho de 2011 um compromisso com a regionalização, a prometida reforma administrativa do país fez parte da entrevista.

“Sou um regionalista e considero que a devemos evoluir para uma governação multinível. Isto é: a cada nível de território, devemos ter uma resposta política com um Governo apropriado. A junta de freguesia, a câmara municipal, e, entre a câmara municipal e o Estado central, nós precisamos de ter regiões, é absolutamente indispensável”, defendeu.

Para Seguro, “o que é necessário é que sejam as pessoas que vivem no território a decidir uma parte do investimento nesse território. E que não tenhamos que andar de chapéu na mão a pedir para se investir. Isso faz toda a diferença. E, por isso, considero que, até prova em contrário, o desenvolvimento dessas regiões é fundamental para um desenvolvimento mais equilibrado do nosso país”.

António José Seguro não quis comentar as declarações do Presidente da República que na sexta-feira disse que “avançar já com a regionalização pode ser um erro irreversível”, mas não deixou de dizer o que pensa sobre esta reforma administrativa do país.

“É necessário, em primeiro lugar, explicar porque é que se quer a regionalização. Há muitas pessoas que defendem a regionalização apenas para criar mais cargos, mais despesa. Ora, é possível fazer a regionalização diminuindo a despesa”, garantiu, sublinhando que “a única coisa que muda é quem decide o investimento a fazer em cada região”.

Sendo embora um defensor da regionalização, o ex-líder socialista não fecha a porta a um outro modelo. “Se encontrarem um outro modelo que não seja a regionalização, para mim, óptimo. O que eu quero é que desenvolvam o meu país de forma equilibrada em, sobretudo, o interior. Que este não seja massacrado e amassado como tem sido”, disse.