Raul José: “Fomos despedidos pelo dr. Bruno de Carvalho” no dia anterior à invasão de Alcochete

Antigo adjunto de Jorge Jesus no Sporting prestou depoimento no caso do ataque à academia de Alcochete.

,Taça de Portugal
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LUSA/JOSE COELHO

Raul José, membro da equipa técnica do Sporting à data do ataque à academia de Alcochete, em 2018, garante que os treinadores foram despedidos no dia anterior à invasão. “Tivemos uma reunião em Alvalade, por volta das 15h, na qual fomos despedidos informalmente pelo dr. Bruno de Carvalho. Ele disse: ‘É o fim da linha’. E disse que não contava connosco. E toda a equipa técnica estava conformada de que já não daria treino no dia seguinte”, detalhou, nesta quarta-feira, na nona sessão do julgamento, no Tribunal de Monsanto, acrescentando que foi o presidente quem sugeriu que o treino do dia seguinte fosse alterado da manhã para a tarde (hora posteriormente definida por Jorge Jesus), para que houvesse tempo para preparar o despedimento formal.

No entanto, tal como explicou o ex-treinador-adjunto, o cenário alterou-se. Como a equipa técnica não recebeu nota de culpa para o despedimento formal, teve de comparecer no treino da tarde. E foi nessa altura, como definiu Raul José, que começou o “terror” e o “pânico”.

“Foi um clima difícil de descrever. Fui empurrado pelo primeiro grupo de adeptos, que, depois de entrarem, procuraram o Acuña e o Battaglia e começaram a ‘distribuir fruta’. O Acuña retaliou um bocadinho e empurrou quem o queria agredir. Depois fui ajudar o Bas Dost, que estava no chão, e levei com um cinto no ombro. Havia duas pessoas com cintos”, disse.

Raúl José falou ainda das marcas de agressão no rosto de Jorge Jesus e da postura de William Carvalho: “Lembro-me de o William ser agredido com uma chapada e ir atrás desse elemento que o agrediu. Penso que o William o conhecia, pela forma como estava a falar com ele”.

Questionado sobre se existiram ameaças, Raul José foi claro: “Ameaças? Ameaças não, porque eles não ameaçaram, eles bateram (...) creio que eles vinham para o susto, mas depois aquilo descambou e ficou fora do controlo. Mas esta é uma suposição minha.”

Nélson emocionado em tribunal

Na sessão da tarde, já depois de Miguel Quaresma ter prestado um depoimento sem grandes destaques, Nélson Pereira, treinador de guarda-redes à data do ataque, mostrou-se emocionado quando relembrou a atitude dos adeptos.

“Não digo que viessem só para conversar, mas não acredito que viessem para agredir. Alguém perdeu o discernimento e aquilo acabou por descambar. Lido com aquelas pessoas [claque] há muitos anos e sempre fui bem tratado”, argumentou, emocionando-se na sala do tribunal de Monsanto, antes de reiterar, repetidamente, que compreende a contestação dos adeptos após maus resultados.

O antigo guarda-redes veiculou ainda uma sensação semelhante à de Raul José, recordando uma frase que considera atestar que as intenções iniciais dos adeptos não eram as piores. “A dada altura, alguém gritou: ‘Isto correu mal, vamos embora daqui'”.

A Nélson foi pedida, também, a reconstituição do momento do ataque à Academia. “Tentei impedir os primeiros a chegar e um deles disse: ‘Nélson, isto não é nada contigo, é com o Acuña e o Battaglia’. Eu disse-lhes: ‘Não brinquem com isto’, mas eles continuaram e vi o Misic a ser agredido com um cinto”.

Foi solicitado, ainda, que Nélson recordasse a abordagem aos jogadores no aeroporto, a seguir ao jogo frente ao Marítimo - episódio que terá estado na base da ira da claque com Acuña e Battaglia. O treinador garantiu que acabou por ter um papel apaziguador. “O Fernando Mendes estava mais exaltado, porque não conhecia o Acuña, e sentiu-se ofendido com o esbracejar dele. Eu fui na direcção do Fernando e, pelo respeito que temos um pelo outro, conseguimos conversar. Abracei-o e as coisas abrandaram. Depois, oiço o desabafo do Battaglia, naquele estilo latino, e aquilo acendeu novamente mais um bocadinho”.

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