Análise

A confusão e a demora em torno dos procedimentos do VAR

Com o regresso da principal competição futebolística nacional, regressaram também os casos de jogo e alguns bastante interessantes sob o ponto de vista da análise da interpretação regulamentar e, em particular, do protocolo do videoárbitro (VAR). 

No Gil Vicente-Sporting, já em tempo de compensação, tivemos mesmo o caso da jornada, que muita confusão originou após o árbitro consultar o monitor, por indicação do VAR, e ter expulsado, por acumulação de cartões amarelos, o médio Doumbia. A decisão inicial deveu-se a um penálti cometido pelo jogador do Sporting, mas, passados alguns segundos, o árbitro fez o costa-marfinense regressar ao jogo, anulando a advertência inicial. 

O penálti, que passou despercebido ao árbitro, por uma cotovelada de Doumbia sobre Lourency, foi anulado porque, no momento de construção dessa jogada atacante dos gilistas, Kraev estava em fora-de-jogo. A dúvida que se instalou foi, em termos de protocolo, se ao anular a parte técnica (penálti), em virtude do fora-de-jogo, também se anulava a parte disciplinar (cartão amarelo).

Olhando em primeiro lugar para o protocolo, em termos gerais, sem falar especificamente deste lance, a resposta é simples: se o cartão (amarelo ou vermelho) resulta de um penálti em que o infractor é punido por cortar um ataque prometedor (jogada de perigo) ou uma clara oportunidade de golo, então, nestas circunstâncias, anula-se a parte disciplinar e retira-se o respectivo cartão. Mas se o infractor, ao fazer penálti, tiver uma entrada negligente (não tem em conta o perigo e as consequências do seu acto para com o adversário - amarelo) ou usar de força excessiva (colocando em perigo a segurança ou a integridade física de um adversário - vermelho) em ambas as situações anula-se o penálti, ou seja, a parte técnica da decisão, mas o respectivo cartão mantém-se. 

Ora, quando olhamos para a acção de Doumbia sobre Lourency estamos, na minha opinião, perante um caso claro de uso excessivo de força, passível de cartão vermelho directo, pois a cotovelada na cara é deliberada e perigosa, quer no acto, quer na sua consequência. Mas mesmo que, com alguma “boa vontade”, se olhe para esta acção apenas como negligência, o penálti que foi bem revertido pelos 5 cm em fora-de-jogo de Kraev teria de ter sempre a acção disciplinar para com o jogador “leonino”. 

Outra situação interessante desta jornada, e que tem sido também alvo de críticas, prende-se com o tempo considerado excessivo para a análise dos foras-de-jogo por parte do VAR. No Benfica-Marítimo, aquando do primeiro golo dos “encarnados”, o jogo esteve parado entre os 7m40s e os 10m41s (3m01s);  e no Gil Vicente-Sporting, no primeiro golo dos gilistas, o jogo esteve interrompido entre os 17m08s e os 20m40s (3m32s). 

Desde esta época que a equipa de VAR passou de três para quatro elementos, ou seja, para além do VAR, do AVAR (assistente) e do técnico de imagens, faz parte também o técnico da empresa que a federação contratou e certificou e que coloca as linhas do fora-de-jogo. Assim sendo, sempre que há um lance enquadrado no protocolo, como é o caso de um golo ou de um penálti, em que se tenha de rever a fase de ataque e transição ofensiva de uma equipa e verificar se alguma irregularidade ou infracção ocorreu, estando em causa um possível fora-de-jogo, é aqui que entra este novo técnico. 

O tempo gasto para aplicar os respectivos procedimentos não é da responsabilidade do árbitro que está na Cidade do Futebol na qualidade e função de VAR, pois este limita-se a verificar se os procedimentos estão correctos e de acordo com a lei, ou seja, se as linhas estão a ser colocadas nos jogadores certos e nas partes do corpo passíveis de serem analisadas. O procedimento propriamente dito e a tecnologia, esses, são accionados, operados e executados pelo tal técnico, por isso, são injustas as críticas e os comentários depreciativos que estão a ser feitos sobre os árbitros e o sector de arbitragem. 

É claro que estas paragens de três ou mais minutos são prejudiciais e quebram o ritmo de jogo. Nesse sentido, espera-se que todo este procedimento seja agilizado e acelerado, mas colar aos árbitros, uma vez mais, o rótulo de “culpados” não faz sentido, pois não se trata de tempo perdido com a decisão, mas sim de tempo gasto com os procedimentos. E, como expliquei, estes não dependem dos árbitros, mas sim dos técnicos e da respectiva tecnologia. 

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