Comité do Nobel da Literatura sofre duas demissões a uma semana da entrega dos prémios

Dois membros não executivos da academia sueca bateram com a porta. Prémio atribuído a Peter Handke e a demora na renovação da instituição na base das saídas.

Peter Handke em Lisboa em 2011
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Peter Handke em Lisboa em 2011 Rui Soares

A cerca de uma semana da entrega dos prémios Nobel da Literatura, que ocorrerá a 10 de Dezembro em Estocolmo, a academia sueca viu dois dos seus membros mais recentes baterem com a porta: Gun-Britt Sundström e Kristoffer Leandoer, que há dois anos tinham sido nomeados membros não executivos do Comité Nobel, anunciaram a sua saída esta segunda-feira, com críticas diferenciadas à instituição. A Academia confirmou as demissões, em comunicado citado pela AFP.

Sundström, 74 anos, crítica literária, justificou a sua saída com a atribuição do prémio deste ano ao austríaco Peter Handke, uma decisão que colocou “a obra literária acima da política”; Leandoer, escritor e tradutor de 57 anos, invocou a “falta de paciência” para esperar pela anunciada renovação da instituição após os escândalos que a atingiram em 2017, e que levaram inclusivamente ao cancelamento da atribuição do Nobel da Literatura em 2018, o que viria a acontecer também este ano, com o prémio a recair na escritora polaca Olga Tokarczuk.

Declarando-se “feliz” por ter participado na escolha da autora de Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos, Gun-Britt Sundström​ justificou a sua demissão num artigo publicado no diário Dagens Nyheter. A escolha do laureado de 2019 “não se limitou a recompensar uma obra literária; foi também interpretada, tanto dentro como fora da Academia, como uma tomada de posição que coloca a literatura acima da política”, escreveu a crítica literária, explicando não ser essa a sua “ideologia”.

Perspectivas sobre o tempo

A atribuição do Nobel a Peter Handke motivou uma polémica generalizada, devido às posições políticas do autor de A Angústia do Guarda-redes antes do Penalty. O escritor foi acusado de negar o genocídio dos bósnios na guerra na ex-Jugoslávia nos anos 90, além de ter defendido o líder sérvio Slobodan Milosevic, que viria a morrer na prisão quando estava a ser julgado pelo Tribunal Penal de Haia, precisamente acusado de genocídio. Handke participou e discursou no seu funeral.

Também Kristoffer Leandoer justificou a sua demissão na imprensa, com um artigo publicado no diário Svenska Dagbladet. “Abandono o meu lugar no Comité do Nobel porque não tenho nem paciência nem tempo para esperar as mudanças resultantes do trabalho iniciado”, escreveu o escritor e tradutor sueco, esclarecendo, no entanto, que a sua saída não tinha qualquer relação com a polémica em volta de Peter Hendke.

“A Academia e eu temos um perspectiva diferente sobre o tempo: um ano é muito tempo na minha vida e pouco tempo na vida da Academia”, esclareceu Leandoer numa referência à demora excessiva, na sua opinião, que está a ter a renovação prometida após o abalo que a instituição sofreu em 2017, quando Jean-Claude Arnault, fotógrafo, figura proeminente da cena cultural sueca e marido de Katarina Frostenson, poeta feminista eleita membro da Academia desde 1992, foi acusado de assédio sexual — um processo que levaria ao cancelamento do Nobel de 2018.