Conferência Ibero-Americana foi politizada, mas não esqueceu cooperação, diz ministro

As crises na Venezuela e na Bolívia foram temas centrais do encontro. “Não houve cadeiras vazias” na reunião de Andorra, mas Santos Silva salientou que muitos países da América Latina se confrontam com “difíceis desafios políticos”.

Augusto Santos Silva
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Santos Silva apresentou um projecto de cooperação na área do teatro daniel rocha

O ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros português disse esta terça-feira que a cooperação não é incompatível com a diversidade de posições entre os Estados-membros da Conferência Ibero-Americana, cujos chefes da diplomacia estiveram reunidos na cidade andorrana de Soldeu.

Augusto Santos Silva referia-se, em declarações à Lusa, à elevada politização da Conferência Ibero-Americana perante as crises na América Latina.

Na reunião de chefes das diplomacias dos Estados-membros da Conferência Ibero-Americana, que decorreu segunda e terça-feira em Soldeu, Andorra, Augusto Santos Silva salientou a importância de conciliar os principais objectivos da organização - cooperação mútua e a afirmação global dos países que a constituem - com os desafios que hoje se colocam a muitos membros, envolvidos em crises políticas e sociais.

“Não houve cadeiras vazias”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros português, em declarações telefónicas à Lusa, no final de uma reunião onde a presença de todos os países revela, na sua perspetiva, a importância da Conferência no momento em que muitos países da América Latina se confrontam com “difíceis desafios políticos”.

Na reunião de Soldeu estiveram presentes os chefes das diplomacias de Andorra, Espanha, Honduras, Nicarágua, Portugal e República Dominicana, enquanto os restantes países estiveram representados por funcionários governamentais.

As crises da Venezuela e na Bolívia foram temas centrais do encontro, com o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Josep Borrel, a concluir que a reunião acabou por ser “mais política do que estava previsto”.

Augusto Santos Silva disse que a sua declaração durante a reunião coincidiu com a de Josep Borrel na afirmação da defesa dos valores essenciais da Conferência Ibero-Americana, “que não é incompatível com a pluralidade de posições” dos diversos países que integram a organização.

“É possível conciliar a cooperação entre países e a afirmação global dos membros, apesar das diferenças que nos possam separar em termos políticos”, explicou o ministro português, referindo a preocupação sentida por vários países em referir as suas posições e sentimentos perante os conflitos que assolam vários países da América Latina.

“Não é fácil para os ministros ibero-americanos, num momento em que passam por uma situação muito complicada em quase todos os países”, acrescentou Josep Borrel, que se prepara para assumir o cargo de comissário europeu para os Assuntos Externos, a partir de domingo próximo.

Santos Silva disse à Lusa que, sobre os casos da Venezuela e da Bolívia, a preocupação partilhada foi a de contribuir para soluções que tragam os valores democráticos e de paz para estes países membros.

O ministro português sublinhou a existência de passos importantes nesse sentido, com o anúncio de eleições na Bolívia, após a renúncia do Presidente Evo Morales, exilado no México; e com o consenso encontrado entre deputados apoiantes do Presidente eleito venezuelano, Nicolas Maduro, e deputados apoiantes do Presidente interino, Juan Guaidó, para a escolha de membros para um Conselho Eleitoral, na procura de eleições livres e democráticas.

O chefe da diplomacia portuguesa anunciou ainda o reforço da posição portuguesa na Conferência Ibero-Americana, com a apresentação de um projecto de cooperação entre os países na área do teatro, o Ibercena, que se junta a fundos de voluntariado que Portugal tem apoiado.

Augusto Santos Silva aproveitou a deslocação a Andorra para contactos com a comunidade portuguesa (um em cada sete habitantes do principado é de origem portuguesa) e para reuniões bilaterais com diplomatas e governantes do México, Venezuela, República Dominicana e Andorra.

“Para além de um encontro com Josep Borrel, com quem gosto de falar frequentemente, sobretudo agora que ele ocupará um relevante cargo europeu”, disse Santos Silva.

A comunidade ibero-americana é composta por 22 países, dos quais três europeus, Portugal, Espanha e Andorra, e 19 latino-americanos: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai, Panamá, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.