Mag Rodrigues
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Mag Rodrigues
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O amor da minha vida

Há anos que não me suporto. Ela sabe, nunca lhe escondi a minha fraca auto-estima. Falei demasiado, foi isso, acabei por convencê-la com o meu discurso de que não valho nada.

Saiu do banho enrolada na toalha e entrou descalça na cozinha, aproximou-se da bancada onde eu me encontrava a cortar um frango para o nosso jantar — sou eu quem cozinha nesta casa — e disse “temos de falar”. Sem que eu tivesse tempo de articular uma palavra premonitória, acrescentou “já não te amo”. A frase assentou-me como a faca nas entranhas do frango. Não fiz perguntas. Ela não disse mais nada. Encaminhou-se para o quarto e vi o rasto que os pés molhados deixaram no chão de soalho flutuante. Pegadas que não deveria seguir.

Larguei o frango e a faca na bancada, e refugiei-me no sentido oposto ao do quarto, na marquise, com um cigarro aceso espetado nos queixos. Talvez a geografia da casa mude quando estamos em perda. As divisões aumentam, distendem-se. Por exemplo, um corredor com alguns metros, que nem existência tem na nossa cabeça num dia bom, torna-se o corredor da morte, quando a pessoa que amamos deixou de nos amar e se encontra na extremidade oposta. O quarto, que antes foi liberdade e alegria para ambos, é agora uma cela interditada a visitas. A casa tem uma geografia mutável e emocional, sim, pode dizer-se que sim. Vivemos há quase vinte anos neste sétimo andar. Lá longe vê-se uma linha de rio sobre os telhados. Foi o que nos fez comprar o apartamento – o fio de água a aguçar-nos o desejo de mantermos para sempre os olhos no mesmo horizonte. Não sei o que fazer. Sei o quão irremediável é a situação. Quando deixam de nos amar, voltamos à desprotecção. E sentimo-nos enganados. Ninguém deixa de amar da noite para o dia. Isso sei eu.

Casámos há tanto tempo, parece uma memória tão antiga. Não tivemos filhos, ela nunca quis. Não queria que a gravidez e os primeiros anos lhe encurtassem os objectivos profissionais. É ambiciosa, sempre foi; foi isso que me apaixonou logo nos primeiros encontros. Não falávamos muito, no início, mas a cama era qualquer coisa. Nunca desejei tanto uma pessoa como naqueles primeiros anos. É claro que a coisa amainou com o tempo, acontece a todos, mas ainda temos uma vida sexual activa. Vida sexual activa. Que merda de expressão, o chato que me tornei.

Há anos que não me suporto. Ela sabe, nunca lhe escondi a minha fraca auto-estima. Falei demasiado, foi isso, acabei por convencê-la com o meu discurso de que não valho nada. Cansou-se de me contrariar com palavras optimistas, viu-me finalmente como eu sou, ou talvez já o tenha visto há muito. Suponho que ande a fazer um esforço há bastante tempo. Imagino-a a deitar-se na cama ao meu lado e a sentir-se tristíssima, ou a ter nojo de mim quando lhe toco. Certamente que sim, isto aconteceu. Não entendo como é que não vi. Não percebi. Estava demasiado concentrado na minha infelicidade, não percebi que estávamos os dois desgostosos; os dois desacompanhados.

Talvez ainda consiga salvar a relação, se eu mudar de atitude, sim, vou mudar de atitude agora mesmo, vou deixar de fumar, por exemplo. Ela detesta os meus cigarros e o cheiro que deixam em mim e na casa; mesmo na marquise antipatiza com as beatas esmagadas no cinzeiro. Vou cuidar de mim para poder cuidar dela, de nós, vou mostrar-lhe que sou capaz. Eu sou capaz. Agora mesmo, acabo de fumar este cigarro e vou direito ao quarto dizer-lhe que a amo e que as coisas vão mudar nesta casa. Os cigarros são só um exemplo. Vou mudar muitas coisas. Prometo que vou.

Oiço a porta da rua bater. Ela saiu. Espreito pela janela da marquise, daqui consegue ver-se quem entra e quem sai do prédio. Vou vê-la sair e gritar-lhe que a amo, é isso. Tenho de agir. É agora o momento. Enche-me de ternura vê-la caminhar com o casacão apertado até ao pescoço, apressada como sempre, com os seus passinhos rápidos e curtos. Inspiro todo o ar que consigo para gritar a plenos pulmões que a amo, mas ela caminha na direcção de um carro. E não é o nosso carro.

Alguém a espera. Um homem. O homem sai do carro. Um tipo que eu nunca vi. É mais novo do que nós. Parece mais novo do que nós. Contorna a viatura e abre-lhe a porta do lado do pendura, ela entra. Observo o carro a arrancar e o tal homem que desconheço leva consigo a minha mulher. O amor da minha vida. Acendo um cigarro, e outro, e outro. 

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