Letizia, a mulher sem medo da Máfia siciliana

Letizia Battaglia levou para as primeiras páginas dos jornais os crimes da Máfia de Palermo nos anos 1970. É a sua história (em parte) que Kim Longinotto conta em Shooting the Mafia, a concurso no Porto/Post/Doc.

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"Shooting the Mafia": poder, dinheiro, violência, silêncio, pobreza, abandono, dsgraça na Sicília da segunda metade do século XX
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Eis o mafioso arrependido Tommaso Buscetta a entrar na sala de audiências de Palermo onde teve lugar o maxi-processo da Máfia. Mas não estamos a ver Pierfrancesco Favino, o actor que lhe dá corpo em O Traidor, de Marco Bellocchio: é o próprio Tommaso Buscetta em imagens de época de 1986. Por mais do que apenas um momento, é a realidade que Kim Longinotto (Londres, 1952) põe no ecrã do seu mais recente trabalho, Shooting the Mafia, a concurso no Porto/Post/Doc (Rivoli, esta terça-feira, às 14h30; repete na quinta-feira, às 22h).

A presença constante da Máfia na cidade siciliana de Palermo é o centro de um filme que, embora se integre na perfeição na habitual temática feminina/feminista da cineasta britânica, é também um retrato de uma mulher que se recusou a ficar oprimida e a ser discriminada ao longo da sua vida. Essa mulher é a fotógrafa Letizia Battaglia (Palermo, 1935), que “escapou” à vida de esposa, mulher e mãe na Itália do pós-Segunda Guerra Mundial e se tornou, aos 40 anos e sem ter experiência formal, fotojornalista no jornal  L’Ora. As suas fotografias das vítimas de crimes da Máfia siciliana deram a volta ao mundo e levaram para as primeiras páginas a violência da Cosa Nostra, em paralelo com as primeiras investigações policiais de fundo que viriam a vitimar os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.

Por aí, Shooting the Mafia é uma espécie de “filme-companheiro” de O Traidor, embora num registo muito diferente. Usando como “centro” a visão de Battaglia sobre os eventos — visão de fotógrafa e cidadã (e mais tarde edil) — e recorrendo às suas fotografias e a imagens de arquivos televisivos e jornalísticos, Shooting the Mafia “abre o plano” sobre a Sicília da segunda metade do século XX e mostra o outro lado do poder e do dinheiro: a violência, o silêncio, a pobreza, o abandono, a desgraça. As famílias que subitamente perderam os homens; os corpos que jazem no pavimento cobertos com um lençol ou num carro ou num quarto ainda com manchas de sangue; tudo com uma crueza de detalhes com tanto de extraordinário como de perturbante. A câmara de Battaglia, hoje com 84 anos, registou tudo isso para a posteridade. Onde O Traidor é um grande plano sobre um episódio específico da vida da Máfia, Shooting the Mafia é uma visão de conjunto, um resumo que abre pistas.

Não é apenas da Máfia, contudo, que Longinotto quer falar: é também de Letizia, a mulher por trás destas fotografias, e do facto de que não poderia ter sido outra mulher a registar estas imagens. Letizia, a mulher, foi casada, teve filhas, passou uma temporada num hospital psiquiátrico. Não quis relegar-se ao papel de esposa, mulher e mãe que lhe tinha sido prescrito: o marido não a queria a estudar, a relação descambou, houve uma separação. A inexistência de imagens deste período da sua vida é contornada com um golpe de inspiração por Longinotto, que recorre a imagens de filmes de época — e sobretudo à Anna de Alberto Lattuada, a mesma Silvana Mangano que já tinha hipnotizado Nanni Moretti — para ilustrar as contradições de uma sociedade patriarcal.

Mas, nesse processo, é também estranho que a documentarista britânica não aborde pormenores históricos que ajudariam a explicar a transformação de Letizia numa mulher sem medo, que tomou como companheiros e amantes homens sistematicamente mais novos (e quase sempre fotógrafos como ela) e decidiu ignorar alegremente o que os outros pensavam sobre ela. Não há dúvidas quanto ao valor e à importância do trabalho de Letizia Battaglia, que se tornou numa espécie de ícone de Palermo (é ver o modo como, na Palermo de hoje, ela é cumprimentada num desfile político como se fosse uma diva do povo, uma inspiração). Mas Shooting the Mafia tem um vazio no seu centro: como é que Letizia, a mulher, passou a Battaglia, a fotógrafa? O filme passa por cima desse período, mas Kim Longinotto deixa-nos com vontade de ir mais fundo.