Cristina Cosme vence Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís

Um Símbolo Vivo é o primeiro romance desta autora de 70 anos. Será agora editado pela Gradiva.

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RUI GAUDÊNCIO

O romance inédito Um Símbolo Vivo, “escrito sem pressas já numa idade madura”, valeu a Cristina Cosme o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, no valor de dez mil euros, anunciou esta terça-feira a Estoril-Sol, promotora do galardão.

Para o júri, presidido por Guilherme d'Oliveira Martins, em representação do Centro Nacional de Cultura, trata-se de “um romance que articula, com desenvoltura, o jogo de prudências e astúcias das relações humanas”. Numa Lisboa "por onde a imaginação faz circular relações pessoais e amorosas, a Cidade e seus lugares desenham uma geografia de percursos afectivos e, por vezes, de sonhos e fantasias da protagonista, Silvana, uma mulher solitária em busca de si mesma”, prossegue o júri na acta do prémio.

Além do valor pecuniário, a distinção assegura a edição da obra vencedora, através de um protocolo entre a Editorial Gradiva e a Estoril-Sol.

O Prémio Agustina Bessa-Luís distingue autores portugueses, “sem qualquer obra publicada no género”, segundo se lê no regulamento. Em 2016, deixou de fixar um limite etário aos concorrentes.

Cristina Cosme, de 70 anos, já foi premiada nas categorias de conto e de poesia. É licenciada em Filologia Germânica, tendo sido docente do Ensino Secundário, do qual se aposentou. Sobre Um Símbolo Vivo, a autora disse à Lusa que se inspirou no pós-25 de Abril, perante “uma geração marcada por uma educação austera e paternalista”, que se vê impelida “a gerir o obscurantismo do passado com um novo mundo e a nova liberdade oferecida”.

Não se trata, explica Cristina Cosme, de “um romance linear": “Há nele vários espaços dramáticos, drásticos, trágicos e adversos, espaços de perturbação mental, de lucidez e de reflexão, contextos situacionais e referenciais, cenários de várias temáticas cuja unidade constitui a procura dos mais elevados anseios. Todos os elementos formais e conceptuais contribuem para o mesmo fim, para que essa busca encontre respostas. Em simultâneo, existe uma ambiguidade trazida por uma ironia que não se desvenda, um jogo de hipóteses e de mistério que, sendo real, transpõe o real. Um jogo fechado que o leitor tem de abrir e interpretar à sua maneira.”

A pintura é outra das paixões de Cristina Cosme: “Por muitos anos, foi a minha forma de encontrar uma estética consentânea com a minha concepção de vida.” Concluiu o curso de Tecnologias da Pintura a Óleo na Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo e, na Sociedade Nacional de Belas Artes, os cursos de Introdução à História da Arte e História da Arte nos Séculos XIX e XX. Desde 1996 que apresenta os seus trabalhos em exposições individuais e colectivas.

Apesar de um “calendário apertado” de exposições, em Portugal e no estrangeiro, a escrita nunca “deixou de estar no centro” das suas aspirações. “Sempre fez parte de mim, era-me intrínseco, estava lá sempre e nunca a vi como forma de ascensão ou veleidade. Ser-se romancista era um passo distante e improvável. Dar esse passo era considerar se outros olhos veriam com agrado o que eu podia produzir, por algum efeito reflexivo ou estético.”

Aposentada do ensino, Cristina Cosme entendeu que “tinha chegado o tempo de escrever com outra convicção”. Entre os autores que a inspiram, cita Marguerite Yourcenar, Franz Kafka, José Saramago ou Eça de Queirós.

Do júri do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís fizeram ainda parte José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores, Maria Carlos Gil Loureiro, pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, os autores Maria Alzira Seixo, José Carlos de Vasconcelos e Liberto Cruz, convidados a título individual e, finalmente, o jornalista Dinis de Abreu, em representação da Estoril-Sol.

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