Editorial

A grandeza e as misérias do Alqueva

É preciso dispor de metas e incentivos que travem o olival e fomentem outras culturas. E, principalmente, é incontornável enterrar essa utopia perigosa que aumentaria o Alqueva em 40 mil hectares.

O empreendimento do Alqueva pode muito bem ser o símbolo do Portugal extractivista, megalómano e irracional que resistiu à democratização, à Europa e à modernização e se consolida no Alentejo como testemunho de um passado difícil de expurgar. Contrariando as previsões mais pessimistas, o Alqueva cumpriu-se e cumpriu a sua extraordinária missão – levar água para irrigar as planícies secas do sul. Erguido o betão e acumulada a água do Guadiana, entrámos no desvario. Não houve um plano de ordenamento pensado e prudente e os 120 mil hectares de área regada tornaram-se numa imensa monocultura sustentada por pouca água, é certo, mas por métodos intensivos que recorrem a químicos danosos para o ambiente. Não houve prudência na leitura das tendências do clima e autorizaram-se centenas de proprietários a instalar culturas regadas fora do perímetro da rega. E numa decisão que hoje se pode erguer como um monumento à ambição desmesurada, pediram-se financiamentos para aumentar a área regada em 40 mil hectares.

Para que não haja confusão, ou para que não se ergam as trincheiras entre produtivistas e ambientalistas, o Alqueva é um extraordinário sucesso do Portugal democrático. Mas é-o mais pelas dádivas da natureza (a água e os solos) do que por mérito do Estado ou, em certa medida, dos empresários agrícolas portugueses. O investimento aí realizado precisava de uma visão integrada entre a economia e o ambiente que inexistiu. Precisava de um projecto incentivado pelo Estado e adoptado pelos agricultores que garantisse a diversificação de produções que faz parte de todas as economias sólidas. E precisava também daquela visão a longo prazo que não iludisse a realidade da natureza do Alentejo: o uso de água nas planícies secas exige uma ponderação especialmente cautelosa.

O recurso ao olival, que exige pouca rega, foi, entretanto, favorecendo a ideia de que o Alqueva era um maná. Dava para alargar a área original e até para crescer um terço lá para as zonas de Évora. Há anos que em voz baixa se comentava entre agricultores e organismos oficiais que se estava a ir longe de mais na ambição e na exploração dos recursos. Hoje, como dava conta o PÚBLICO neste sábado, a realidade impôs-se e chegou a hora de pôr os pés na terra e suspender todas as megalomanias para salvar o que existe. Em primeiro lugar, garantir futuro a longo prazo aos agricultores do perímetro e evitar que se expulsem os “precários” que investiram fortemente para levar água às suas terras. É preciso dispor de metas e incentivos que travem o olival e fomentem outras culturas. E, principalmente, é incontornável enterrar essa utopia perigosa que aumentaria o Alqueva em 40 mil hectares.