Opinião

A influência urbanística da Expo’98, de Bragança a Albufeira

Se nos planos nacional e local se têm verificado alterações consideráveis ao nível urbano com repercussão na vida das cidades, ao nível das frentes de água da Área Metropolitana de Lisboa as transformações têm sido menos evidentes.

A Exposição Mundial organizada no final da década de 90, a Expo'98, assinalou em Portugal um momento singular de consolidação do processo democrático e de otimismo quanto à integração europeia. Este processo lançou bases para a construção de uma nova identidade do país, através da reconciliação com o seu passado histórico. Em vez do pensamento estado-novista, a epopeia dos “descobrimentos” era apresentada como elemento de uma narrativa ambientalista suportada na preservação dos oceanos e na união dos povos e das culturas.

A reconversão da área oriental de Lisboa, então recetáculo logístico da indústria petroquímica e da atividade portuária, definiu o diapasão de uma nova era e os padrões urbanísticos que viriam a ser seguidos a nível nacional nos anos seguintes. A Expo'98 – embora contestada à época – viria paulatinamente a ser vista como um laboratório de formulações sobre a importância reputacional das cidades no período pós-industrial. As hipóteses lançadas no território entre o Poço do Bispo e o Rio Trancão foram suportadas nas lógicas do desenho urbano e da valorização do “espaço entre os edifícios” (Jan Gehl, 1971) através de eixos verdes que retomaram os princípios das avenidas do final do século XIX. A descontaminação dos terrenos sublinhou a consciência ambientalista que enquadrava a intervenção.

A experiência da operação e o seu reconhecido sucesso motivaram que, logo em 2000, tenha sido lançado o programa Polis com o objetivo de levar a outras cidades os mesmos critérios de intervenção desenvolvidos em Lisboa. Esta estratégia ambiciosa de requalificação urbana e ambiental – que tinha como objetivo “melhorar a qualidade de vida nas cidades, através de intervenções nas vertentes urbanística e ambiental” – criou bases para a intervenção em 39 cidades, através de um investimento de 1,2 mil milhões de euros (Seixas, 2013), na sua maioria verbas europeias.

De Bragança a Albufeira, foram requalificados centros urbanos, áreas ribeirinhas e orlas marítimas. Foram criados parques urbanos, percursos cicláveis e experimentados novos sistemas de mobilidade. Os resultados do programa foram revelados em 2007 na exposição “Programa Polis – Viver as Cidades”, ocorrida no Pavilhão de Portugal. No ano seguinte foi lançado o Plano Geral de Intervenções na Frente Ribeirinha de Lisboa.

Este instrumento urbanístico veio articular o processo de reabilitação de um conjunto alargado de áreas que, até então, estavam no âmbito privado sob a alçada do Porto de Lisboa. Através de ações descentralizadas, foram feitos vários investimentos ao longo dos 22 km de margem de rio, para onde convergiram novos espaços públicos e edifícios singulares. As transformações em Lisboa realizadas sob o legado da Expo'98, têm ocorrido também em iniciativas de reabilitação e pedonalização do espaço público no interior da cidade, sendo a operação no eixo central ao longo das avenidas Fontes Pereira de Melo, República e Campo Grande aquela que teve maior impacto.

Se nos planos nacional e local se têm verificado alterações consideráveis ao nível urbano com repercussão na vida das cidades, ao nível das frentes de água da Área Metropolitana de Lisboa as transformações têm sido menos evidentes. Não obstante o trabalho cirúrgico que tem sido realizado na frente ribeirinha entre Loures e Vila Franca de Xira, ou a reabilitação das margens de Alcochete ou do Seixal, são muitas e extensas as bolsas que permanecem sem destino traçado. Aos casos dos estaleiros da Lisnave e dos terrenos da Quimiparque, vêm somar-se áreas militares com uso reduzido ou áreas que carecem de fortes investimentos como são os casos da Trafaria, Torrão e Cova do Vapor.

Se muitas propostas e ideias têm surgido para estas bolsas vagas, muito pouco se tem refletido sobre o potencial unificador do estuário em relação aos vários centros urbanos ribeirinhos. Ganha, por isso, particular relevância a discussão que sobre isso será feita na conferência “As frentes de água na Área Metropolitana de Lisboa” que se irá realizar em Lisboa, a 28 de novembro, no Teatro Thalia, integrada no ciclo “Transformações e Lugares em Espera”.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico