Europa deu mais dinheiro às startups, mas continua na cauda

Reino Unido lidera indicadores, apesar do “Brexit”. Portugal fica mal na fotografia: é o último no capital de risco per capita, discrimina mulheres e minorias.

Foto
Francisco Romão Pereira

O empreendedor típico com capacidade de angariar dinheiro é homem, é branco, e estava bem na vida antes mesmo de fundar uma empresa de tecnologia. Não há forma mais sucinta de descrever o perfil do empreendedor ibérico que merece a confiança de investidores.

Em Portugal e em Espanha, 92% do financiamento angariado por empresas tecnológicas foi para equipas de homens. Quem é mulher, ou não é caucasiano, sente-se discriminado. Apenas 0,9% são negros. Quem nasceu pobre, nem chega à porta: 81% dos inquiridos disseram que já “viviam confortavelmente” antes de fundarem empresas.

O retrato da tecnologia na Europa, feito no quinto relatório anual da Atomico, leva a concluir que “os números da diversidade na Europa ainda são sombrios”. Numa amostra de mais de 100 empresas, há apenas uma mulher na função de administradora da tecnologia (CTO).

Os autores realçam mesmo que o continente tem “problemas de diversidade e inclusão”. Já era assim em 2018. Daí que a lista dos “desafios” imediatos comece precisamente pela diversidade e inclusão. Outro objectivo é incentivar negócios mais sustentáveis. E pôr fim ao abismo entre decisores políticos e empresários. Por fim, quer-se reforçar as redes de conhecimento e de capital. No tema do dinheiro, a Europa continua bastante atrasada face aos principais concorrentes.

Em 2019, os EUA arrecadaram 116,7 mil milhões de dólares (cerca de 105 mil milhões de euros ao câmbio actual) de investidores, um pouco menos do que em 2018, mas ainda assim quase o triplo dos 34,3 mil milhões da Europa e mais do dobro dos 62,5 mil milhões de dólares da Ásia. Ainda que a Europa seja a única região em que o nível de investimento aumentou face a 2018, o continente mantém-se no terceiro lugar, a grande distância dos principais concorrentes.

Nos últimos 12 meses, nasceram 14 “unicórnios” na Europa, elevando o número de startups tecnológicas com valor de mercado acima dos mil milhões de dólares para 99. O maior contributo pertence ao Reino Unido que, apesar de ameaçado pelas consequências do “Brexit” continua a liderar a cena tecnológica europeia em praticamente todos os indicadores.

Os dados são anualizados, a Setembro de 2019. Mostram que na Europa até houve mais entradas na bolsa (33 IPO, na sigla inglesa) do que nos EUA (29). Mas em capitalização bolsista, fica patente a pequenez europeia: 153 mil milhões é quanto valem os dez maiores IPO dos EUA este ano, contra 22 mil milhões do top 10 europeu. A Uber sozinha valeu mais do que os dez maiores IPO europeus deste ano.

O contributo de Portugal para o desempenho europeu é mínimo. O país tem 93.800 programadores (86.600 em 2018), o que o coloca em 18.º lugar. O líder é a Alemanha, com dez vezes mais programadores.

As maiores comunidades tecnológicas portuguesas estão em Lisboa, Porto e Braga. Os líderes europeus são Berlim, Londres e Paris.

O volume de financiamento em Portugal nos últimos 12 meses foi de 140 milhões de euros, em 56 rondas de investimento. O país fica no 17.º lugar europeu. Inglaterra, em primeiro lugar, angariou 11 mil milhões de dólares em 1303 rondas. As tecnológicas alemãs, em segundo lugar, garantiram 5,9 mil milhões.

Foi bastante menos do que os 418 milhões de 2018, mas esse número foi inflacionado com o grande investimento garantido pela OutSystems nesse ano. O país tinha uma startup “unicórnio” (avaliada em mais de mil milhões de dólares) e continua a ter apenas uma em 2019.

Em contexto, Portugal representou 0,4% do investimento em startups na Europa, onde o panorama é dominado pelo Reino Unido (cerca de metade), Alemanha e França. E em termos de talento, a comunidade portuguesa representa 1,5% da comunidade europeia.

Dado que a comparação envolve países muito distintos em dimensão, faz sentido olhar para o capital de risco numa base per capita. E nesse aspecto, Portugal caiu para o último lugar: em termos cumulativos, já estava no fundo da tabela no período de 2013 a 2015, ficando no entanto à frente da Letónia, da Polónia, da Sérvia e da Roménia; mas a posição portuguesa degradou-se entre 2016-2018 – os três primeiros anos da Web Summit –, porque a constituição de fundos de capital de risco numa base per capita recuou, sendo Portugal agora o último classificado. O capital de risco per capita era de quatro dólares e caiu para três, no período em que Lisboa passou a integrar o roteiro anual de milhares de investidores. O que mostra que o tecido nacional de venture capital, apesar do esforço em o desenvolver, continua pequeno e, numa comparação internacional, não tem expressão nem força.

O relatório mostra ainda que Lisboa se mantém como um dos destinos preferenciais dos mil fundadores de empresas que foram inquiridos. A capital portuguesa surge no sexto posto da lista de cidades preferidas para abrir uma startups. Londres, Berlim, Barcelona, Paris e Amesterdão são os cinco destinos mais votados.

Apesar disso, Portugal não consta da lista dos dez países preferidos, que é liderada pelo Reino Unido, pelos EUA e pela Alemanha.

Um dos critérios de avaliação é o preço do imobiliário e, nesse aspecto, o Porto é uma das cinco cidades com maior aumento do valor do arrendamento. Numa lista liderada por Estocolmo, o Porto regista um aumento de 50% no valor do arrendamento comercial por metro quadrado, face aos preços de 2014, logo atrás de Berlim, que registou uma subida de 56%.