Nuno Ferreira Monteiro
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Nuno Ferreira Monteiro

Megafone

Uma goleada de bom senso

Na rígida lógica dos burocratas não cabe sequer pensar que os grandes problemas que enfrentamos apenas podem ser defrontados colectivamente, não cabe sequer imaginar que o mundo estará sempre mais perto do caos conforme a noção de comunidade se for perdendo.

De acordo com informação comum aos três diários desportivos nacionais, e que igualmente mereceu tratamento na imprensa internacional, o treinador de juniores de um desconhecido clube italiano de seu nome Invictasauro foi despedido depois de ter conduzido os seus pupilos a uma esmagadora vitória por 27(!)-0. Podemos destratar o assunto vendo-o como mais uma das curiosidades carnavalescas em que o mundo do futebol é pródigo. Porém, ao olharmos para as razões apontadas pelo dirigente máximo do modesto clube italiano para o despedimento, torna-se difícil não pensar uma segunda vez na verdadeira importância de uma notícia que, em princípio, não mereceria mais do que dez segundos da nossa atenção. No comunicado onde justifica a sua decisão, o presidente do Invictasauro, Paolo Brogelli, fala na vergonha que sentiu quando soube do resultado desnivelado que, na sua opinião, não é compatível com os valores que devem nortear o futebol juvenil, nomeadamente o do respeito pelo adversário. A finalizar, admite que os treinadores da formação do clube transalpino têm como missão treinar os jovens jogadores, mas acima de tudo educá-los para o futebol.

Por cá, há sensivelmente um ano, éramos confrontados com a pioneira medida tomada pelo Estoril Praia, que decidiu deixar de divulgar os resultados obtidos pelas suas equipas de formação, considerando que mais do que o aspecto competitivo e da pressão que lhe está associada, interessa o divertimento dos jovens jogadores. Além disso, a decisão baseava-se numa inegável premissa: um atleta educado é melhor do que um excelente jogador.

Desde cedo, o jovem jogador esquece que o que esteve na origem dos seus primeiros toques na bola foram, muito provavelmente, o desejo de contactar com o outro, a necessidade de pertencer a um grupo, a sensação de correr desalmadamente sem chegar a lado algum e a liberdade que tal proporciona. Em vez destes disparates que nada interessam, é inculcado nos jovens futebolistas aquilo a que eufemisticamente se chama espírito competitivo e se traduz não só na obsessão pelo resultado em detrimento da diversão e do prazer inerentes à prática desportiva, como também na sobreposição sistemática de aspectos individuais, do usual “querer ser o melhor”, aos objectivos colectivos e à cooperação, ao contacto com o outro, sempre necessários para a sua prossecução.

Chegados a este estado, onde os valores que a prática desportiva deveria pressupor, mas também fomentar, são relegados para segundo plano, medidas e decisões como as acima apontadas são de louvar por recentrarem os objectivos que devem presidir à prática desportiva nas idades mais jovens.

Como é evidente, este não é um problema exclusivo do fenómeno desportivo. Na escola, local de formação por excelência, assistimos igualmente à transformação dos mais jovens em autênticos animais de competição. Para dar lugar a essa transformação, centra-se a aprendizagem na mera assimilação e reprodução de conteúdos e nos resultados que esse exercício produz, descurando-se assim o desenvolvimento relacional, objectivo essencial de uma aprendizagem bem delineada.

Isto é feito quer no âmbito desportivo quer no âmbito escolar, com o objectivo de preparar os meninos para as agruras da vida e os desafios de um mundo onde ou se come ou se é comido. Pelo menos é isso que nos dizem os burocratas do status quo. Na rígida lógica dos burocratas não cabe sequer pensar que os grandes problemas que enfrentamos apenas podem ser defrontados colectivamente, não cabe sequer imaginar que o mundo estará sempre mais perto do caos conforme a noção de comunidade se for perdendo.