Amnistia Internacional diz que podem ter morrido cem manifestantes nos protestos no Irão

Segundo a organização, as forças de segurança “receberam luz verde para esmagar” os protestos. ONU fala em número “significativo” de mortos.

Um autocarro incendiado durante protestos nocturnos em Isfahan, no centro do Irão, a 17 de Novembro
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Um autocarro incendiado durante protestos nocturnos em Isfahan, no centro do Irão, a 17 de Novembro EPA

Mais de 100 manifestantes podem ter sido mortos durante os protestos contra o Governo no Irão devido ao aumento do preço da gasolina, indicou esta terça-feira a organização de defesa dos direitos humanos Amnistia Internacional (AI).

“Pelo menos 106 manifestantes foram mortos em 21 cidades, segundo informações credíveis”, desde o inicio dos protestos, na sexta-feira, disse a AI num comunicado, adiantando que “o verdadeiro balanço pode ser bem mais elevado, sugerindo algumas informações de que até 200 pessoas podem ter sido mortas”.

“As autoridades devem acabar imediatamente com esta repressão brutal e mortal”, declarou Philip Luther, director de investigação da Amnistia para a região do Médio Oriente e do Norte de África.

O Presidente Hassan Rohani considerou estes números “especulativos” e declarou nesta quarta-feira “vitória” sobre o movimento de protesto, cuja origem atribuiu a inimigos estrangeiros.

A AI afirmou basear-se em “imagens vídeo verificadas, testemunhos de pessoas no terreno e informações” de militantes dos direitos humanos fora do Irão. Segundo a Amnistia, as forças de segurança “receberam ‘luz verde’ para esmagar” as manifestações.

A organização disse ainda que os vídeos mostram elementos das forças de segurança a “utilizar armas, canhões de água e gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes”, assim como “atiradores furtivos nos telhados de edifícios a disparar sobre a multidão e, num caso, um helicóptero”.

Entre os manifestantes detidos na província de Alborz, no norte do país, encontram-se iranianos com dupla nacionalidade alemã, turca e afegã, avança a agência noticiosa semioficial Fars, que diz ainda que estas pessoas tinham recebido treino e financiamento de serviços secretos estrangeiros para destruir infra-estrutura e estimular acções de desobediência civil no Irão. Tinham em sua posse equipamentos para sabotagem, diz a Fars, sem adiantar mais pormenores, explica a Reuters.

Já anteriormente Teerão tinha atribuído a culpa pelos protestos a “bandidos” ligados a políticos exilados e inimigos externos - os Estados Unidos, Israel e a Arábia Saudita. As manifestações contra a subida do preço e racionamento dos combustíveis - que se reflectiram numa lata generalizada dos artigos de consumo começaram na sexta-feira passada.

O clima de agitação nas ruas iranianas aparentemente esmoreceu nas últimas horas, mas devido ao bloqueio quase total do acesso à Internet no país, a verificação da situação no terreno, nomeadamente o número de mortos e de feridos, é muito difícil de fazer.

ONU: número “significativo” de mortos

A ONU também denunciou esta terça-feira o uso excessivo de força contra os manifestantes, incluindo o recurso a balas reais, manifestando preocupação com os relatos que dão contra de um número “significativo” de mortos.

“Estamos particularmente alarmados com a utilização de munições reais que terão provocado um número significativo de mortos em todo o país”, afirmou o porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Rupert Colville, em declarações à comunicação social em Genebra (Suíça).

Colville indicou que o número de vítimas mortais nos protestos ronda as várias “dezenas” segundo os “’media’ iranianos e outras fontes”, adiantando que “muitas” outras pessoas terão ficado feridas e que “mais de mil manifestantes foram presos”.

Na noite de segunda para terça-feira, as agências semioficiais iranianas Isna e Fars noticiaram a morte de três elementos das forças policiais, relatando que os agentes tinham sido “esfaqueados” por “manifestantes numa emboscada” a oeste da capital iraniana.

Pelo menos outras seis pessoas foram mortas durante os protestos, segundo informações publicadas por várias agências iranianas, grande parte divulgadas sem fontes ou sem muitos pormenores.

De acordo com o plano do governo, o preço da gasolina, bastante subsidiada no Irão, deve aumentar 50% para 15.000 riais (11 cêntimos de euro) para os primeiros 60 litros adquiridos cada mês e 300% além disso.

As receitas da subida dos preços destinam-se a subsidiar 60 milhões de iranianos com necessidades, entre os 83 milhões de habitantes, segundo explicou o responsável pela Planificação e Orçamento, Mohammad Bagher Nobakht.

O Irão registou uma quebra da sua moeda, o rial, ligada em parte às sanções económicas restabelecidas a partir de meados de 2018 pelos Estados Unidos (EUA), após a retirada unilateral de Washington do acordo internacional sobre o nuclear iraniano de 2015. A inflação no país é superior a 40%.