Meio milhão de espectadores franceses na primeira semana de J’Accuse, de Roman Polanski

Apesar de incentivos ao boicote, na sequência de acusação de uma actriz que diz ter sido violada há 40 anos por Polanski, o filme teve o sétimo melhor fim-de-semana do ano em França para um filme francês e é a 30.ª melhor estreia do ano em termos gerais.

,Festival de Cinema de Veneza 2019
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Com total de 501 228 espectadores em sete dias, J’Accuse, de Roman Polanski, instala-se no primeiro lugar dos filmes mais vistos em França esta semana, à frente de Le Mans 66, O Duelo (o filme com Matt Damon e Christian Bale que está no primeiro lugar no mercado americano), noticia o site da revista Première citando Le Film Français, a publicação da indústria francesa. J’Accuse, que foi o título da carta que Emile Zola publicou no jornal L’Aurore a 13 de Janeiro de 1898, dirigindo-se ao presidente da República Francesa, Félix Faure, acusando membros do aparelho militar e do governo de cumplicidade na forjada condenação por traição de um inocente, o oficial de artilharia judeu Alfred Dreyfus, estreou-se mundialmente no Festival de Veneza, onde recebeu o Prémio do Júri. É a adaptação do romance An Officer and a Spy de Robert Harris. 

O lançamento em França, pela Gaumont, há uma semana em mais de 500 salas, viu a sua campanha de marketing afectada pelas declarações da fotógrafa e actriz Valentine Monnier, que dias antes, numa carta ao jornal Le Parisien, afirmara que Polanski a violara “com extrema violência” em 1975, na estância de esqui de Gstaad, Suíça, quando tinha 18 anos. Foi a proximidade da estreia que levou Valentine a decidir falar agora, 44 anos após os factos que denuncia, explicou ao Le Parisien: “É admissível, a pretexto de um filme e a coberto da História, ouvir dizer ‘Eu acuso!’ àquele que vos marcou a ferro, enquanto vós, a vítima, estais impedidos de o acusar?”

Imediatamente as entrevistas de promoção foram canceladas: Jean Dujardin, que interpreta no filme o coronel Piccart, o oficial que denunciou a falsificação do documento usado para incriminar Dreyfus (Louis Garrel), anulou a entrevista ao canal televisivo TF1; Emmanuelle Seigner, que interpreta a amante de Picquard, cancelou a sua presença no programa Boomerang; a France 5 anulou a difusão de uma conversa com Louis Garrel, previamente gravada, antes das acusações de Monnier.

Polanski, 86 anos, nega as acusações. Ameaça processar Monnier. Mas a estreia foi recebida com protestos às portas de alguns cinemas e com incentivos de movimentos feministas ao boicote (o hashtag #BoycottPolanski apareceu nas redes sociais). Conseguiram perturbar e inclusivamente levar à anulação de sessões em algumas cidades. Aconteceu presidentes da câmara obrigarem salas municipais a desprogramarem J'Accuse, o que desencadeou reacções em favor da liberdade artística: o crítico de cinema Stéphane Goudet lembrou que isso seria “uma estreia em França” e que se se deve lutar contra as violências infligidas às mulheres e contra a cultura da violação, deve-se também lutar contra toda a forma de censura. Em vez de proibir, diz, deve-se confiar no profissionalismo dos programadores e no livre arbítrio dos espectadores. 

Várias personalidades haviam declarado publicamente que não iriam ver o filme. Foi o caso da secretária de Estado encarregue do dossier da Igualdade homens-mulheres, Marlène Schiappa, ou da porta-voz do governo francês Sibeth Ndiaye: "Acho que tem de haver alguma coisa [por trás das acusações contra Polanski] apesar de não ter havido uma condenação, dado que isto tem emergido várias vezes, o que me preocupa”.

O realizador ainda hoje é alvo de um mandado de detenção da justiça americana sob a acusação de ter drogado e violado uma menor, Samantha Geimer, então com 13 anos, em Los Angeles, em 1977. Depois disso, em 2010, a actriz inglesa Charlotte Lewis acusou-o de abuso sexual durante um casting em 1983, quando tinha 16 anos. Em 2017 foi a vez da alemã Renate Langer o acusar de a ter violado, também em Gstaad, em 1972, quando tinha 15 anos. Langer chegou a apresentar queixa, que não foi aceite porque o crime, a ter ocorrido, estaria prescrito. Com excepção do "caso” Samantha Geimer,  que faz de Polanski hoje um fugitivo à justiça americana, dado que se refugiou em França em 1978 no seguimento de 42 dias passados na prisão quando admitiu a violação da adolescente de 13 anos, Polanski tem negado as acusações. Agora até se viu apoiado por uma figura pública, a realizadora Nadine Trintignant, que na televisão disse que estava “mais inclinada a acreditar nele do que na mulher que demorou 44 anos a pensar em denunciá-lo”.

Nas reportagens dos principais diários franceses, feitas nas salas de estreia de J'Accuse, era notória a determinação dos espectadores: deslocaram-se para ver um filme, diziam, separavam a obra do realizador. O mercado falou e contas feitas, e depois de ter funcionado fortemente, segundo os analistas, o boca à orelha, os números de J'Accuse são a sétima melhor posição, em termos de fim-de-semana de estreia em França em 2019, para um filme francês; e a 30.ª melhor estreia do ano em geral. As estimativas apontam para resultados finais na ordem dos 1,2 milhões a 1,5 milhões de espectadores — os maiores sucessos de Polanski em França foram Piratas (1986), com 2 milhões de entradas, Tess (1979), 1,9 milhões, e O Pianista, 1,8 milhões. O anterior filme do realizador, D’après une histoire vraie, no mesmo período de tempo apenas tinha atraído  67 631  espectadores​Por isso tem sido citado este tweet de Melissa Silverstein, fundadora do movimento Women and Hollywood: “WTF France?”. Silverstein criticara, em Setembro, o Festival de Veneza por ter seleccionado Polanski para a competição, júri presidido pela argentina Lucrecia Martel, cuja confissão pública, a de que se sentia “desconfortável” com a presença de J'Accuse, foi aliás a grande turbulência no Lido.

PÚBLICO -
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Picquart e Dreyfuss, Dujardin e Garrel

À medida que os primeiros números de box office de J'Accuse começaram a ser revelados, a seguir ao primeiro fim-de-semana, a Sociedade de Autores Realizadores e Produtores (ARP), reagindo ao inquérito do site Mediapart em que a actriz Adèle Haenel acusava o realizador Christophe Ruggia de assédio sexual durante uma parte da sua vida, entre os seus 12 e 15 anos, manifestava o seu forte engajamento contra todas as formas de agressão sexual. As declarações de Haenel configuram aquilo a que muitos — veja-se a capa da revista Les Inrockuptibles — consideram ser um ponto de viragem na indústria francesa, o início do momento #metoo em França. A ARP anunciou que vai propor, em sede da sua Assembleia Geral, no próximo ano, novas regras para os seus membros condenados ou que enfrentam acusações de comportamento sexual inapropriado. O que pode determinar a exclusão de Polanski quando os mais de 200 membros da ARP discutirem as mudanças. “Não podemos enterrar a cabeça num buraco e fingir que o mundo não mudou”, declarou Pierre Jolivet, presidente da ARP. “Passaram quarenta anos entre o primeiro caso envolvendo Roman Polanski e hoje. O mundo mudou muito em quarenta anos”, observou Jolivet. “Os crimes são os mesmos, mas a maneira como são percebidos mudou enormemente”.

No início da semana, o ministro da cultura francês, Frank Riester, sem nomear o cineasta, avisava que “o génio não é garantia de impunidade”, que uma “obra de arte, por maior que seja, não perdoa os eventuais pecados do seu autor" e, manifestando-se contra a “condenação nos tribunais da opinião pública”, anunciava novas medidas para enfrentar a violência sexual na indústria francesa. 

A estreia portuguesa de J'Accuse, distribuído pela Midas Filmes, está marcada para o final de Janeiro de 2020.