LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO
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LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

Megafone

Obrigado, Zé Mário

Partiu José Mário Branco, alguém muito especial para mim, especial para a pessoa que fui em todas as fases da minha vida e para a pessoa que ainda iria ser. Alguém a quem evitaria mostrar a minha música por saber que ao pé da sua seria sempre uma valente porcaria.

O José Mário Branco sempre foi dos nomes mais ouvidos em minha casa, por isso tenho dificuldade em imaginar a minha vida sem ele. Interessei-me pelas suas canções ainda criança, muito antes de as compreender. Imagino hoje que isso tenha acontecido devido à sua forma de interpretar tão singular e pela força tão contagiosa que colocava na palavra. Mais tarde, em adolescente, comecei a assimilar o grande letrista, compositor e intérprete que era. Nessa altura, a ele também devo grande parte do despertar para várias questões políticas que ainda hoje me definem. Lembro-me de ouvir o FMI no quarto, aos altos berros, vezes sem conta, ao ponto de o saber de cor. Lembro-me de ter o meu primeiro contacto com a história recente da Palestina numa canção do Zé Mário. E por aí fora... 

Ao chegar à idade adulta, quando me interessei por música popular portuguesa, comecei a ouvir o nosso cancioneiro alentejano, minhoto e, principalmente, o transmontano. Percebi que muito daquilo já me soava familiar. Era mais uma vez o Zé Mário, que já me tinha apresentado aquele mundo sob a sua incrível e legítima apropriação. 

Já na faculdade, quando percebi o grande produtor e arranjista que era, não só dos seus próprios discos mas de tantos outros como o Zeca e o Camané, mais ainda o admirei (e estudei). Nesse sentido, quando também percebi a forma inteligente e humilde como mudou de perspectiva em relação ao fado, e foi aprender com ele quando já tanto sabia, mas o admirei. E se o Zé Mário ganhou com o fado, muito mais o fado ganhou com o Zé Mário.

Permitam-me ainda referir o quão estiloso e bonito era José Mário Branco. O seu bom gosto e a sua elegância estavam também presentes na sua aparência — e até as suas últimas imagens são de um homem ao lado de quem estamos condenados a sentir-nos muito pequenos.

Acordei com uma mensagem a pedir para escrever este texto — e ainda meio combalido da bofetada desta notícia, estou há dez minutos a procurar uma conclusão para ele. Sem dúvida, partiu uma figura muito importante para a nossa cultura e para a nossa identidade colectiva. Mas não é sobre isso que estou a pensar. A empatia que o José Mário criava com quem se cruzava com a sua obra, comigo em particular, não me permite ter nenhuma conclusão tão universal. Estou apenas a sentir que partiu alguém muito especial para mim, especial para a pessoa que fui em todas as fases da minha vida, e para a pessoa que ainda iria ser. Alguém a quem evitaria mostrar a minha música por saber que ao pé da sua seria sempre uma valente porcaria, alguém com quem morreria de medo de ter uma interacção que implicasse falar e não apenas ouvir. Enfim... Obrigado, Zé Mário!