Opinião

Fernando Pessoa e a globalização do comércio

Uma cultura comercial-tecnológica e uma cultura literária-artística têm mais relação entre si do que muitos querem admitir, seja por arrogância intelectual ou por ignorância.

1. A humanidade já passou por várias globalizações. Aquela que historicamente pode ser considerada a primeira globalização é objecto de orgulho e de nostalgia entre nós. Está ligada às grandes viagens marítimas dos navegadores portugueses nos séculos XV e XVI. Uma segunda globalização emergiu mais tarde, já em finais do século XIX e inícios do século XX, mas foi brutalmente interrompida pela I Guerra Mundial. Nessa globalização, os britânicos, com um império assente num poder militar (naval), comercial e financeiro global, foram os protagonistas maiores.

Ambas são globalizações do passado, mas a última tem resíduos ainda bastante visíveis em Inglaterra, como se vê em muitos apologistas do Brexit. No mundo do século XXI, a globalização, tal como a conhecemos, foi fundamentalmente impulsionada pelos EUA no pós-1945. Teve uma enorme aceleração partir dos anos 1980, com a derrocada do muro de Berlim. Foi acentuada pelo colapso da União Soviética e do seu modelo anti-capitalista e anti-democracia liberal. Mas a globalização de tonalidades americanas a que nos habituámos — para os críticos uma globalização (neo)liberal que mercantilizou toda a vida humana —, está a ser matizada, ou mesmo a ser substituída, por uma globalização cada vez mais chinesa. (Ver “A globalização chinesa” in Público, 7/02/2017).

2. O que pensaria Fernando Pessoa da actual globalização? A pergunta, à primeira vista, parece desfasada ou um fútil exercício especulativo. Fernando Pessoa é um nome maior da literatura portuguesa e mundial, não da economia ou do comércio internacional. Viveu num mundo muito diferente do actual e morreu em 1935. Quando estudamos a globalização não estamos a pensar nos escritos que nos deixou. Alguns poderão, todavia, lembrar-se de trechos de uma das suas obras maiores, A Mensagem, publicada em 1934. Nela, Fernando Pessoa escreveu sobre o Infante D. Henrique, o mais importante impulsionador da globalização iniciada pelos navegadores portugueses: “Em seu trono entre o brilho das esferas / Com seu manto de noite e solidão / Tem aos seus pés o mar novo e as mortas eras — / O único imperador que tem, deveras, / O globo mundo em sua mão. (Ver Fernando Pessoa, “A Cabeça do Grifo: o Infante D. Henrique”​, 1928 in Arquivo Pessoa).

Para além de evocar aí a grandiosidade e a nostalgia do passado, Fernando Pessoa era extraordinariamente multifacetado e não apenas por se desmultiplicar em heterónimos — Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e outros. A sua faceta literária decorreu a par de actividades ligadas ao comércio, não necessariamente só por razões de subsistência. O caso mais conhecido encontra-se no slogan publicitário que concebeu para a Coca-Cola em 1927: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. (Ver “A história da Coca-Cola em Portugal”, 4/07/2017). Na altura, a multinacional americana procurava implantar-se em Portugal. Na realidade não o conseguiu pelo nacionalismo económico de Salazar, que proibiu a comercialização da bebida.

3. Em vários artigos publicados originalmente em 1926 na Revista de Comércio e Contabilidade, Fernando Pessoa analisou o comércio internacional da época. Esses textos mostram um pensamento elaborado sobre um conjunto de temas que hoje surgem ligados à globalização na sua faceta económico-comercial. Ao contrário do que poderíamos esperar num intelectual da envergadura de Fernando Pessoa, não tinha desprezo pelo capitalismo, nem pelas actividades materiais e tecnológicas, algo que é comum entre as elites intelectuais e artísticas. Provavelmente os seus estudos na África do Sul e a influência anglófona foram determinantes nessa visão do mundo. Também não era crítico do comércio movido pelo lucro. Pelo contrário, fez uma defesa, surpreendente para alguns, daquilo que, na linguagem de hoje, seria chamado globalização comercial.

Num artigo intitulado “A Evolução do Comércio” notou o seguinte: “A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja hoje pelos teoristas de impossíveis, é contudo um dos dois característicos distintivos das sociedades chamadas civilizadas. O outro característico distintivo é o que se denomina cultura. Entre o comércio e a cultura houve sempre uma relação íntima, ainda não bem explicada, mas observada por muitos. É, com efeito, notável que as sociedades que mais proeminentemente se destacaram na criação de valores culturais são as que mais proeminentemente se destacaram no exercício assíduo do comércio.”

Fernando Pessoa foi mais longe. Na síntese final de ideias do artigo criticou todos aqueles que olham, para si próprios, como indivíduos de cultura e mostram uma superioridade intelectual sobre o material e o comercial. O estabelecimento, um pouco demorado desta analogia ou paridade entre o fenómeno cultural e o comércio não é uma espécie de degressão ou devaneio neste artigo e nesta Revista. Visa, antes de mais nada, a mostrar claramente a importância social do comércio, e a mostrá-la àqueles mesmos que frequentemente a esquecem ou a negam. E como esses, em geral, são os que são ou se julgam pessoas de cultura, o argumento, que se lhes opõe, é tirado das próprias preocupações deles; responde-se-lhes na própria língua que falam ou dizem falar.” (Ver Fernando Pessoa, “A Evolução do Comércio”, in Arquivo Pessoa). A defesa de uma interligação virtuosa entre a cultura comercial e tecnológica e a cultura literária e artística torna-o um caso relativamente singular entre as grandes figuras intelectuais e literárias.

4. Ler Fernando Pessoa a discorrer sobre a internacionalização e as estratégias de abordagem aos mercados internacionais não deixa de ter o seu lado curioso e surpreendente. A elegância da escrita, pontuada por vezes de ironia, torna a leitura dos textos um gosto, mesmo para aqueles que não têm qualquer apetência pelo comércio internacional, nem pela gestão.

Num outro artigo publicado na já referida Revista de Comércio e Contabilidade em 1926, começou por contar uma pequena história sobre a forma como os alemães tinha conquistado o mercado de taças para ovos aos britânicos na Índia. Aqui há anos, antes da Grande Guerra, correu os meios ingleses, como exemplo demonstrativo da insinuação comercial alemã, a notícia do caso curioso das ‘taças para ovos’ (eggcups) que se vendiam na Índia. O inglês costuma comer os ‘ovos’, a que nós chamamos ‘quentes’, não em copos e partidos, mas em pequenas taças de louça, do feitio de meio ovo, e em que o ovo, portanto, entra até metade; partem a extremidade livre do ovo, e comem-no assim, com, uma colher de chá, depois de lhe ter deitado sal e pimenta. Na Índia, colónia britânica, assim se comiam, e naturalmente ainda se comem, os ovos ‘quentes’. Como é de supor, eram casas inglesas as que, por tradição aparentemente inquebrável, exportavam para a Índia as taças para este fim. Sucedeu, porém, que, alguns anos antes da Guerra, as firmas inglesas exportadoras deste artigo notaram que a procura dele na Índia decrescera quase até zero. Estranharam o facto, buscaram saber a causa, e não tardou que descobrissem que estavam sendo batidas por casas exportadoras alemãs, que vendiam idêntico artigo ao mesmo preço.” 

Como explica depois, o sucesso germânico deveu-se não a diferenças de preço, ou de qualidade do produto, mas ao facto de terem criado um taça especificamente para esse mercado, adaptada à dimensão dos ovos produzidos pelas galinhas da Índia. (Ver “A Essência do Comércio” in Arquivo Pessoa).

5. A fina ironia de Fernando Pessoa encontra-se ainda nos comentários à falta de conhecimento dos mercados de alguns empresários. Quando um comerciante, que use a cabeça para fins mais interiores que a colocação do chapéu, verifica que lhe é impossível cotar convenientemente para certo mercado, deve responder a um pedido de cotação que, dadas estas ou aquelas circunstâncias, não pode cotar nesse momento; [...]” (idem). Com isto notava a importância prática do conhecimento dos mercados internacionais nas suas diversas facetas. Notava, também, que melhor seria o comerciante não se aventurar em exportações quando não tivesse tal conhecimento.

Veja-se esta observação perspicaz: O estudo psicológico do mercado é também importante, mas, ao passo que o seu estudo económico é essencial e fundamental em qualquer género de comércio, é o comércio de retalho e as formas do outro comércio (de origem directamente industrial) que com ele tem semelhança, que mais têm que atender a este elemento. A maneira de fabricar, de apresentar, de distribuir e de reclamar um artigo varia conforme a índole geral dos indivíduos que compõem o mercado onde se pretende vendê-lo [...]. O modo de encarar a vida, ou, pelo menos, certos aspectos da vida, varia de país para país, de região para região. A humanidade, sem dúvida, é a mesma em toda a parte. Sucede, porém, que em toda a parte é diferente. É a mesma nas coisas essenciais, nos sentimentos fundamentais; mas, as mais das vezes, não são as coisas realmente essenciais que ela tem por essenciais, nem os sentimentos fundamentais que a preocupam como fundamentais.”

Esta reflexão sobre a unidade e, paradoxalmente, a diversidade, da humanidade, é profunda e actual. Ecoa os debates sobre o mundo globalizado do século XXI, sejam ligados às trocas comerciais ou aos fluxos migratórios. Também pelas reflexões sobre aquilo a que hoje chamaríamos globalização vale a pena ler, ou repensar, Fernando Pessoa. Uma cultura comercial-tecnológica e uma cultura literária-artística têm mais relação entre si do que muitos querem admitir, seja por arrogância intelectual ou por ignorância.