Famadihana, reunião de vivos e mortos em Madagáscar

O leitor Pedro Mota Curto partilha a sua experiência numa das festas tradicionais “mais impactantes” em que participou.

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A banda tocava freneticamente. Clarinetes e trompetes, com alguma percussão. O ritmo contagiante obrigava todo o mundo a dançar. Músicos de pé, seis ou sete, impecavelmente perfilados e vestidos com as suas fardas azuis, boné e tudo, de um azul demasiado desbotado. Fardas antigas, com uma tremenda dignidade, suportavam um desgaste acentuado, metamorfoseando-se num azul difuso que já conhecera melhores dias.

Os instrumentos também tinham um ar antigo e bastante usado mas o som, a dignidade, o profissionalismo e o ritmo eram imbatíveis. Músicas africanas, sons dançáveis que electrizavam a multidão.

No meio de um terreno baldio, centenas de malgaches dançavam imbuídos de uma alegria contagiante. Não havia forma de estar parado. Chão de terra seca, de um vermelho africano, com algum pó pelo ar. Festa autóctone onde não faltavam umas improvisadas tendinhas com comidas e bebidas. A bebida mais popular era um tipo de rum, fabricado a partir da cana-de-açúcar, produzida na quarta maior ilha do mundo e maior ilha africana. Claro que após a primeira hora de festa ao ar livre a maioria das pessoas já dançava com bastante mais ritmo, evidenciando ainda mais a natural tendência dos africanos para serem exímios na dança.

O terreno, onde apenas existia uma árvore, à sombra da qual se encontravam os músicos, situava-se algures nos arredores de Antananarivo, capital de Madagáscar. Esta tremenda festa local tinha a particularidade de juntar os vivos com os mortos. No terreno existia um jazigo, estrutura funerária apenas ao alcance dos mais abastados. Em Madagáscar, o cristianismo introduzido por missionários terá sofrido forte influência das antigas religiões animistas autóctones. Assim, o espírito religioso de uma boa parte da população é uma mescla de crenças e de convicções. Os mortos estão sempre presentes. A natureza ajuda ao contacto eterno entre os vivos e os mortos.

Antes de a festa ter o seu início, os principais elementos da família, proprietária do terreno e do jazigo, sobem para o tecto plano da pequena construção rectangular, sem janelas e apenas com uma porta de madeira, local onde o patriarca profere um discurso para a multidão que rodeia a única construção existente, situada perto da única árvore. Centenas de pessoas escutam-no atenciosamente, desde a família, os amigos, os vizinhos e toda a aldeia que habitualmente também é convidada para o evento. Nas suas palavras há referências aos familiares que estão dentro e fora do jazigo, como se todos estivessem a escutar os seus reparos e conselhos.

Terminada a oratória, inicia-se a música, a festa e o convívio entre os vivos e os mortos. A família voltou a reunir-se. Abre-se a porta do jazigo e os corpos, embrulhados em lençóis brancos, são transportados, em esteiras vegetais, para o exterior do pequeno edifício, sendo posteriormente, e após um breve passeio por entre os presentes, colocados no chão, quatro mortos, em fila, na terra, entre o jazigo e os músicos, não muito longe da solitária árvore. Toca a banda.

Algumas senhoras embrulham os corpos em novas e alvas mortalhas, novos lençóis que depois se amarram com cordas finas, perante o olhar da multidão que convive com os familiares mortos. No final, escrevem o nome dos defuntos nos novos lençóis, com canetas de feltro. Durante o resto da tarde, ao longo de mais algumas horas, continua a festa. Centenas de pessoas dançam, conversam, riem, todos muito bem-dispostos perante a passividade destes quatro familiares, imóveis nas suas esteiras.

O jazigo permanece com a porta aberta, lá dentro o odor é intenso. Prateleiras à esquerda e à direita, com lugar para seis corpos. Jazigo vazio que durante algumas horas é visitado por todos os interessados. No final da festa, o patriarca desta família volta a subir para o tecto do jazigo e discursa uma segunda vez perante a multidão, falando novamente em malgache, a língua de Madagáscar. Impossível compreender o que quer que seja sem o apoio de algum voluntário que traduza algumas palavras para a língua francesa. Agradecimentos, conselhos e reparos aos familiares e amigos, vivos ou mortos. Findo o discurso, os mortos são levados em ombros, atravessando a multidão, de volta às suas prateleiras. Em breve, a porta de madeira será novamente fechada e o local regressará ao silêncio apaziguador.

Terminou a música e a dança. Clarinetes e trompetes saem de cena. As fardas azuis afastam-se com uma tremenda dignidade. Daqui por sete anos regressarão.

Esta festa tradicional é uma das cerimónias mais impressionantes da cultura malgache. Realiza-se, de sete em sete anos, entre Junho e Setembro, na zona central de Madagáscar, não sendo habitual autorizarem a presença de estranhos. A festa denomina-se Famadihana e é, sem dúvida, uma das experiências mais impactantes que se possa imaginar.

Pedro Mota Curto

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