Editorial

UE e Boris Johnson perderam-se na tradução

Parece óbvio que as segundas intenções do primeiro-ministro britânico são as primeiras: dificultar a vida a Bruxelas e marcar pontos internamente.

Há várias semanas que Boris Johnson sabia que o Reino Unido ia permanecer na União Europeia além do dia 31 de Outubro, que uma nova Comissão Europeia iria tomar posse e que um dos 28 novos comissários deveria ser indicado por Downing Street. 

Downing Street sabia e concordou com a decisão do Conselho Europeu, no mês passado, na qual se baseou a extensão do prazo do “Brexit” até ao fim de Janeiro de 2020, segundo a qual era colocada como condição a nomeação de um comissário. Se o primeiro-ministro não o nomeou na data certa foi, simplesmente, por cálculo político ou desprezo por Bruxelas, porque não o quis fazer a tempo e horas. A UE pressionou o Reino Unido a fazê-lo, de modo a não impedir a tomada de posse da Comissão de Ursula von der Leyen, mas Johnson refugiou-se num silêncio muito esclarecedor.

O silêncio só foi quebrado esta sexta-feira com a confirmação de que o comissário britânico não será nomeado antes das eleições legislativas de 12 de Dezembro, como se este fosse um imperativo ético. O embaixador britânico em Bruxelas, Tim Barrow, argumentou com as limitações administrativas e da autoridade política do Governo em funções, como se verifica hoje em Londres, mas parece óbvio que as segundas intenções do primeiro-ministro britânico são as primeiras: dificultar a vida a Bruxelas e marcar pontos internamente, face a um Partido Trabalhista que não sabe como lidar com o “Brexit” e ao seu líder cada vez mais abandonado e cercado por críticas sobre o seu anti-semitismo. 

Por muito que o Reino Unido alegue que se trata de uma prática corrente no período pré-eleitoral, o momento político nacional e europeu exige e justificava a excepcionalidade. De resto, a própria legislação europeia prevê que um Estado-membro não possa alegar motivos similares para se furtar a obrigações jurídicas, que decorrem, neste caso, do Tratado de Lisboa. A UE fez o que tinha a fazer num cenário destes, agravado pelas peripécias que rodearam a aprovação de vários comissários.

A abertura de um processo de infracção é o que acontece quando o diálogo é impossível. Boris Johnson deixou o Reino Unido numa inacção prolongada e agora ameaça fazer o mesmo com a União Europeia, caso o imbróglio não se resolva nas próximas semanas, para permitir que Von der Leyen tome posse a 1 de Dezembro.

Já vimos que o calendário de Johnson é sempre imprevisível e nada fiável. O tempo está a esgotar-se. E a paciência também. O “Brexit” é uma vontade inglesa, com a simpatia galesa. A Europa tem de evitar cair na inacção em que caiu o Reino Unido.