Genética desmascara um brando e desigual passado de infidelidades

A taxa média da chamada “paternidade extra par” é de apenas 1% no que se refere aos últimos 500 anos na Europa ocidental, conclui um estudo que usou dados genéticos e genealógicos para reconstituir o padrão deste fenómeno.

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Os Comedores de Batata" , quadro de Vincent van Gogh, na Holanda do século XIX

Uma equipa de investigadores rastreou os últimos 500 anos na Europa ocidental, cruzando dados genéticos e genealógicos, para tentar detectar sinais da chamada “paternidade extra par”, PEP, ou seja, quando o pai biológico não é o homem que faz parte do casal que “baptizou” ou perfilhou o filho. O estudo divulgado esta quinta-feira na revista Current Biology, do grupo Cell, conclui que havia mais casos entre as classes sociais mais desfavorecidas e que o fenómeno ocorria sobretudo em cidades muito povoadas. A taxa média de “paternidade extra par” ficou-se por 1%, um valor que pode parecer baixo para a maioria das pessoas, mas que não surpreende os cientistas.

Hoje em dia, a dúvida ou questão litigiosa resolve-se facilmente com um teste de paternidade, que pode ser conseguido no circuito legal e oficial, mas também através de clínicas que garantem resultados em pouco tempo. No entanto, a solução para estas questões era bem mais complexa no passado. Aliás, a solução era mesmo esconder estes casos.

“É claro que a paternidade extra par, especialmente devido ao adultério, é um tópico popular em inconfidências, piadas, séries de televisão e obras literárias”, admite Maarten Larmuseau, primeiro autor do estudo e investigador da Universidade de Lovaina, na Bélgica, num comunicado da Cell Press. À parte a curiosidade popular, os autores do estudo quiseram acima de tudo colmatar o facto de o conhecimento científico sobre este fenómeno, especialmente em relação ao passado, ser limitado.

Numa investigação que varreu os últimos 500 anos, a equipa identificou 513 pares de homens adultos contemporâneos que vivem na Bélgica e na Holanda que, com base em provas genealógicas, partilhavam um antepassado paterno comum e, portanto – a não ser que tivessem um caso de paternidade fora do par na família – deveriam ter o mesmo cromossoma Y.

Os resultados trazem algumas surpresas, segundo os seus autores. Em declarações ao PÚBLICO, Maarten Larmuseau começa por explicar que este estudo surge na sequência de uma meta-análise que já tinha sido publicada em 2016 e que concluía que a taxa média de casos de paternidade fora do par em populações contemporâneas e mais antigas do Ocidente estaria entre 1% e 2%. Daí não terem ficado surpreendidos com o 1% que representa o número total de casos.

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O investigador Maarten Larmuseau DR

“A ideia de taxas elevadas de PEP de 10% ou mais na sociedade ocidental ainda é muito popular entre o grande público, assim como entre cientistas e académicos”, refere o autor, sublinhando que essa ideia não está correcta e adiantando que “os níveis relativamente altos de PEP foram observados apenas quando se olhou especificamente para estratos sociais específicos da população estudada”.

Mais inesperada terá sido a conclusão de que a frequência deste “fenómeno” variou entre classes sociais e outras circunstâncias. Os casos apareceram com mais frequência “em pessoas de nível socioeconómico inferior e que viviam em cidades densamente povoadas no século XIX”.

Esta investigação, sublinha o geneticista, “mostra que a possibilidade de ter casos de paternidade extra par na história de uma família depende realmente das circunstâncias sociais dos seus antepassados”. Ou seja, se os antepassados viviam em cidades e pertenciam a classes socioeconómicas mais desfavorecidas, a probabilidade de terem casos de paternidade fora do par na sua história familiar “é muito mais elevada”.

“As mais elevadas taxas de PEP nas populações ocidentais (cerca de 6%) foram observadas entre famílias urbanas com baixo nível socioeconómico no século XIX. As mais baixas (0,3%) entre agricultores de zonas rurais”, confirma Maarten Larmuseau. E como podemos explicar estes resultados? “É uma pergunta muito complicada, pois não podemos entrevistar estas pessoas para saber as causas. Podem ser adultério, mas também agressão/violação. Nos dois casos, é lógico que nas áreas rurais havia muito mais controlo social do que nas cidades (onde qualquer pessoa está mais anónima e com menos laços familiares). O mesmo vale para as classes sociais mais baixas: talvez elas tenham mais incentivos para ter um caso extraconjugal, mas também são muito vulneráveis ​à agressão sexual e têm menos protecção.”

Uma imagem que facilmente surge na cabeça das pessoas coloca estes casos numa situação em que classes altas exerceram seu “poder” sobre os mais desfavorecidos. “Talvez seja tentador interpretar os resultados dessa maneira, mas não conhecemos a classe social dos ‘pais biológicos’ (apenas a classe social dos pais legais) e, portanto, essa interpretação é apenas especulativa”, responde. “As causas dos eventos históricos do PEP são ocultas e potencialmente diversas, incluindo adultério, prostituição, adopção oculta e agressão sexual.”

O contexto social

Sobre a possibilidade de esta realidade ser influenciada culturalmente e, por isso, ser muito diferente noutros países o geneticista defende que é improvável. “Achamos que não haverá uma grande diferença de outros países da Europa ocidental. As baixas taxas históricas de cerca de 1% já foram detectadas em Itália e Espanha nos últimos 500 anos”, refere. Por outro lado, argumenta ainda: “Já existem diferenças culturais entre a Holanda e a Bélgica – a Bélgica é católica romana e a Holanda é principalmente protestante – e não vimos nenhuma diferença entre os dois países.” Portanto, conclui: “Não esperamos encontrar grandes diferenças para Portugal.”

O artigo publicado na Current Biology começa por referir que este tipo de “comportamento” é mais ou menos comum no “reino animal”. Nas “cópulas extrapares” verifica-se que, geralmente, a procura de outro parceiro tem como objectivo aumentar as hipóteses de sobrevivência. “Os machos podem beneficiar deste desvio, gerando mais filhos; as fêmeas podem beneficiar, se acasalarem com machos superiores.” Entre os humanos, o caso muda de figura.

“A principal mensagem do nosso artigo é que a ocorrência de PEP no passado dependia definitivamente do contexto social. Não foi um evento estocástico, que acontecia aleatoriamente nas famílias”, diz Maarten Larmuseau. Interpretando os resultados obtidos, o investigador considera que “a industrialização e a urbanização no século XIX tiveram definitivamente um impacto no comportamento sexual humano, especialmente nas taxas de paternidade extra par entre as classes sociais e entre a cidade e as áreas rurais”.

Além disso, nota, as conclusões desta investigação também contrariam as várias referências na literatura e outras formas de arte ao cenário que punha um aristocrata, geralmente com uma significativa diferença de idade em relação à mulher, a “criar” como filho uma criança com outro pai biológico. “Os nossos resultados mostraram exactamente o oposto e revelaram uma imagem muito mais complexa.”

Este tipo de estudos que cruza a genealogia genética “abre uma nova janela sobre o comportamento sexual de nossos antepassados e a relação biológica entre crianças em famílias históricas”, diz Maarten Larmuseau, observando que os “resultados precisam de ser interpretados dentro de um contexto interdisciplinar, incluindo disciplinas que vão da biologia e antropologia à história e sociologia”.