EUA reconhecem Añez como Presidente da Bolívia, Morales promete voltar “para pacificar” o país

Apoiantes do ex-Presidente protestam nas ruas contra a senadora da oposição, que se autoproclamou Presidente interina na terça-feira. A partir do México, Evo Morales denuncia “conspiração política e económica alimentada pelos Estados Unidos”.

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A violência continua nas ruas de La Paz e de outras cidades da Bolívia MARTIN ALIPAZ/Reuters
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Conferência de imprensa de Evo Morales no México JOSE MENDEZ/EPA
Jeanine Áñez
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Jeanine Añez, proclamada Presidente pela oposição a Morales no parlamento LUISA GONZALEZ/Reuters

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, felicitou a senadora boliviana Jeanine Añez por se ter autoproclamado Presidente interina da Bolívia, na terça-feira, após a renúncia de Evo Morales sob pressão dos militares.

Num comunicado do Departamento de Estado, Pompeo elogia Añez por se “oferecer para dirigir a sua nação num processo de transição democrática, de acordo com a Constituição da Bolívia e à luz dos princípios da Carta Democrática Interamericana”.

Em resposta, o ex-Presidente boliviano condenou o reconhecimento oficial de Añez como Presidente interina da Bolívia e, numa conferência de imprensa na Cidade do México, descreveu a situação no país como “uma conspiração política e económica alimentada pelos Estados Unidos”.

Na mesma declaração, Morales manifestou-se disponível para regressar à Bolívia. “Se o meu povo pedir, estamos preparados para voltar. E voltaremos, mais cedo ou mais tarde, para pacificar a Bolívia”, disse o ex-Presidente boliviano.

Protestos contra Añez

A proclamação de Jeanine Añez como Presidente interina da Bolívia deu origem a uma onda de protestos na capital e noutras cidades bolivianas, na quarta-feira e na madrugada desta quinta-feira, por parte de apoiantes de Evo Morales. Segundo a agência Associated Press, alguns manifestantes usaram pedaços de madeira e de metal como armas e houve apelos a uma guerra civil.

As agências de notícias internacionais dão conta de uma marcada divisão em La Paz entre a população sobre a autoproclamada Presidente interina.

“Não queremos nenhum ditador. Esta mulher pisou-nos, é por isso que estamos tão furiosos”, disse um dos manifestantes à Associated Press.

“Ela não representa o povo mas sim as grandes elites, a sociedade que tem dinheiro mas que não representa os pobres”, disse outro apoiante de Morales.

Mas também há palavras de incentivo a Jeanine Añez: “Parece que ela vai agir com justiça e que vai tirar-nos desta confusão”, disse outro boliviano à agência Reuters.

Proclamação contestada 

Jeanine Añez, feroz opositora de Evo Morales e eleita senadora pelo partido de direita Movimento Democrático Social, autoproclamou-se Presidente interina na terça-feira. A cerimónia no Congresso boliviano não contou com a presença dos representantes eleitos pelo Movimento para o Socialismo, de Evo Morales, o que motivou a acusação de falta de legitimidade por não haver quórum.

A proclamação de Añez é contestada pelos deputados do partido de Morales, que está em maioria no Congresso e que já ameaçou organizar uma cerimónia paralela – o que poderia resultar numa situação semelhante à que se regista na Venezuela, em que o Presidente Nicolás Maduro e o Presidente interino Juan Guaidó dividem o reconhecimento como líderes legítimos.

Añez autoproclamou-se Presidente interina da Bolívia porque se apresentou como a próxima na linha de sucessão, na sua qualidade de vice-presidente do Senado e após a renúncia dos restantes titulares. Mas a antiga presidente do Senado, Adriana Salvatierra, do partido de Evo Morales, disse na quarta-feira que não entregou oficialmente a sua demissão nem esta foi aprovada no Congresso, pelo que não é válida – o que faria dela a próxima na linha de sucessão.

“Ainda sou senadora”, disse Salvatierra aos jornalistas.

Na quarta-feira, as televisões mostraram imagens de polícias que pareciam estar a bloquear a entrada de deputados e senadores do Movimento para o Socialismo no edifício do Congresso, incluindo a senadora Adriana Salvatierra, segundo a agência Reuters.

Eleições contestadas 

Evo Morales demitiu-se no domingo e aceitou a oferta de asilo político no México, onde chegou na terça-feira.

A tensão política e social no país aumentou com as disputas sobre o resultado das eleições presidenciais de Outubro. Morales recandidatou-se a um quarto mandato consecutivo, apesar da derrota num referendo que propunha o fim do limite de mandatos, em 2016 – em 2017 foi autorizado pelo Supremo Tribunal a recandidatar-se.

Eleito pela primeira vez em 2006, numa altura em que não havia limite de mandatos, Morales foi reeleito em 2009 e 2014, pelo que não poderia candidatar-se em 2019 segundo a Constituição aprovada em 2009.

A tensão entre os apoiantes e os críticos de Morales e do seu Movimento para o Socialismo atingiu o auge em Outubro, quando a contagem dos votos das eleições presidenciais foi interrompida numa altura em que parecia certo que haveria uma segunda volta entre Morales e o seu principal adversário, o ex-Presidente Carlos Mesa. Quando a contagem foi retomada, Morales foi declarado Presidente com uma vitória à primeira volta.

Em resposta às acusações de fraude eleitoral pela oposição e pela Organização de Estados Americanos, o Presidente aceitou repetir as eleições, mas o seu adversário exigiu que Morales não se recandidatasse. Nos dias seguintes, os distúrbios nas ruas da capital, com acusações de perseguição a Morales e a políticos do seu partido, levaram o chefe das Forças Armadas do país, o general  Williams Kaliman, a exigir o afastamento do Presidente boliviano.

A renúncia foi anunciada no domingo e Morales exilou-se no México.

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