Editorial

E em Espanha quem ganha é Iglesias

A Espanha tem um pré-governo, não um governo. O bipartidarismo desvaneceu-se. Um Congresso desunido nunca poderá unir um país.

O grande vencedor das eleições espanholas de domingo chama-se Pablo Iglesias. O pré-acordo de governo que o PSOE de Pedro Sánchez assinou esta terça-feira com a coligação Unidas Podemos de Pablo Iglesias vem dar razão a quem não tem parado de dizer que um entendimento político da esquerda espanhola era uma oportunidade histórica, agora convertida em necessidade histórica.

Iglesias está prestes a conseguir o que não conseguiu em Abril: uma coligação com o PSOE e a vice-presidência do Governo espanhol. E Sánchez viu-se forçado a conceder à Unidas Podemos o que evitou até às últimas consequências nos últimos sete meses. Os dois eram os menos interessados numa terceira eleição no mesmo ano. Quer o PSOE, quer a Unidas Podemos perderam votos nesta eleição e só se podem arrepender não terem chegado antes a um acordo que viabilizasse um governo e travasse a tempo e horas a ascensão da extrema-direita. Uma terceira eleição só seria útil ao Vox e, eventualmente, a um PP mais extremado.

O abraço de ambos remete-nos para um simbolismo sobre o qual as incertezas são maiores do que as certezas. Este acordo é um mal menor para quem o assinou, agora que ambos perceberam o erro que foi terem subjugado o interesse público ao tacticismo da política e que o eleitorado os penalizou por isso. Ambos, à sua maneira, deixaram-se deslumbrar. Sánchez recusou negociar com Iglesias; estava convencido de que iria reforçar a sua bancada. Pagou caro pela imprudência e por uma campanha desastrosa, com declarações que punham em causa a independência da Justiça, a propósito da extradição de Puigdemont, num contexto de exaltação nacionalista com a trasladação de Franco e a revolta nas ruas da Catalunha.

Iglesias pediu tudo e mais alguma coisa depois de Abril, não escondeu a soberba, tal era a ambição de entrar no governo, e acabou com menos 635 mil votos (nas penúltimas eleições já tinha perdido um milhão). A ameaça de um amplexo que pode diluir a Unidas Podemos no PSOE é real e um governo de agenda extremada pode ter consequências para os socialistas. O texto acordado é vago e pacífico e foi um primeiro passo, calculado, para reparar o falhanço de Abril. Mas a existência de um “governo progressista” depende de outros passos, desde acordos com o Más País, dissidente do Podemos, aos partidos bascos e galegos. A Espanha tem um pré-governo, não um governo. O bipartidarismo desvaneceu-se. Um Congresso desunido nunca poderá unir um país.