Funcionários temem encerramento da Cervejaria Galiza, no Porto

Trabalhadores depararam-se com material a ser removido do restaurante na segunda-feira e passaram a noite na cervejaria.

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Cervejaria Galiza permanece aberto Adriano Miranda

Os funcionários da Cervejaria Galiza, no Porto, passaram a noite nas instalações e prometem permanecer no local, dia e noite, por temerem o encerramento do estabelecimento. A acção de protesto vai durar, avisam os trabalhadores, até que sejam pagas remunerações em atraso. Esta terça-feira, os trabalhadores vão reunir-se às 18h com a responsável pelo espaço, de modo a tentar desbloquear a situação.

Segundo o coordenador do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Norte, Nuno Coelho, “foi criada uma comissão de três trabalhadores para ajudar à gestão da cervejaria”, enquanto “não se encontra uma solução para o pagamento do subsídio de Natal de 2018 e da segunda tranche do salário deste mês”. 

Na segunda-feira, dia em que o estabelecimento encerra para descanso dos funcionários, um dos trabalhadores passou pelo local e viu que o material da cozinha estava a ser retirado e levado para um carrinha estacionada junto à cervejaria. Também a fechadura do restaurante estaria a ser mudada. Imediatamente, telefonou para os restantes trabalhadores que acorreram ao local e conseguiram impedir que fossem retirados mais produtos e materiais. 

O PÚBLICO esteve presente no local na noite de segunda-feira e falou com um funcionário que acredita que a entidade patronal desejava encerrar o estabelecimento sem avisar previamente os trabalhadores. Na manhã desta terça-feira, o funcionamento era normal, com os trabalhadores a prometerem manter o serviço até que esgotem os produtos na arrecadação. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, contactar a empresa proprietária da Galiza.

“Vamos tentar normalizar a empresa até que esta situação esteja resolvida”, afirmou ao PÚBLICO Miguel Machado, funcionário da cervejaria há 20 anos. O trabalhador adiantou que ficou agendada uma reunião entre os delegados sindicais e os patrões para esta terça-feira, mas teme que a entidade patronal “volte a falhar”. Se tal acontecer, Miguel Machado diz que os funcionários voltarão a passar a noite no espaço, de modo a impedir o encerramento de portas. 

No sábado, “todos os 25 trabalhadores” da Cervejaria Galiza cumpriram um dia de greve em protesto contra os atrasos nos pagamentos das remunerações, segundo disse à Lusa o dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Norte, Nuno Coelho. O principal motivo da greve deveu-se ao facto de a empresa “não ter cumprido o acordo de pagar em Julho o subsídio de Natal, decidido numa reunião no Ministério do Trabalho, nem, depois, em Outubro, como posteriormente ficou combinado”.

Nuno Coelho denunciou, também, que os salários mensais têm sido pago em “duas ou três parcelas”, sendo que não existem aumentos salariais “há uma década. Depois de “a gerência ter deixado ao abandono o restaurante”, há quatro anos, a empresa entrou em dificuldades e as dívidas ao Fisco e à Segurança Social “chegaram aos dois milhões de euros”, sublinhou o sindicalista.

A tentativa de resolver o problema passou pelo recurso a um Processo Especial de Revitalização (PER), aceite pelo Tribunal do Comércio de Vila Nova de Gaia, e pela chegada de um gestor. “O problema é que as suas decisões não ajudam em nada à viabilização da casa”, sublinhou.

Para Miguel Machado, uma “década de má gestão” pode ter arruinado definitivamente uma referência da restauração portuense. “Chegámos a facturar cinco mil euros por dia. Agora, facturamos menos de metade. [Os consultores] mudaram tudo: o menu, por exemplo. Passámos a servir pratos de café e os clientes começaram a reclamar”, lamenta o funcionário. 

Fundada a 29 de Julho de 1972, a cervejaria detida pela empresa Actividades Hoteleiras da Galiza Portuense é “uma das referências do Porto no sector da restauração”, mas, ao ter alterado “para pior produtos e serviços”, colocou “em causa a qualidade e diversidade do serviço, o que levou ao afastamento de clientes importantes da casa”, figuras “de grande relevância nacional ligada à política, artes e desporto”, referiu o sindicato, num comunicado.

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