Evo Morales diz que há um mandado de detenção “ilegal” contra si. Polícia nega

No Twitter, o ex-Presidente disse que havia um mandado “de detenção ilegal” contra si e que vários grupos violentos invadiram a sua casa.

Num protesto contra o agora ex-Presidente Evo Morales
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Num protesto contra o agora ex-Presidente Evo Morales Reuters/AGUSTIN MARCARIAN

A Polícia boliviana negou no domingo que exista um mandado de detenção contra Evo Morales, que se demitiu do cargo de Presidente, contrariando o anúncio feito pelo próprio ex-líder no Twitter.

"Tem estado a ser emitida informação falsa no sentido de que a polícia tenha ordenado a detenção do presidente Morales. Nenhum membro da polícia pode emitir mandados de detenção”, esclarece o comandante da Polícia Nacional, Yuri Calderón, numa entrevista telefónica ao canal privado Unitel. ​"A polícia só executa” as ordens emitidas pelo Ministério Público, acrescenta. 

“Não há nenhuma ordem específica” contra o ex-Presidente e os seus ministros, continua, apenas contra pessoas que possam ter interferido “na ordem eleitoral”. De acordo com o chefe da polícia, existe uma ordem de detenção mas apenas para "os presidentes dos tribunais eleitorais departamentais e os membros departamentais dos tribunais eleitorais”.

Também foi ordenada a prisão de María Eugenia Choque, até este domingo presidente do Supremo Tribunal Eleitoral, e Antonio Costas, que renunciou à vice-presidência do órgão eleitoral pouco antes do final do escrutínio das eleições de 20 de Outubro, que motivaram protestos por uma alegada fraude destinada a assegurar a reeleição de Evo Morales.

Até ao momento, 25 mandados de prisão foram emitidos contra presidentes e membros dos diferentes tribunais eleitorais departamentais, disse Calderón.

Pouco antes, o ex-Presidente da Bolívia Evo Morales, que estava no poder desde 2006, afirmara ter sido emitido contra si “um mandado de detenção ilegal” e que grupos violentos invadiram a sua casa. “Denuncio ao mundo e ao povo boliviano que um polícia anunciou publicamente que foi instruído a executar um mandado de detenção ilegal contra mim; ao mesmo tempo, grupos violentos invadiram a minha casa. Os conspiradores destroem o Estado de Direito”, escreveu Evo Morales no Twitter.

A mensagem foi publicada depois de o líder cívico Luis Fernando Camacho também ter garantido nas redes sociais que havia uma ordem para deter Morales. “Confirmado! Mandado de prisão contra Evo Morales! A polícia e os militares estão a procurá-lo em Chapare, lugar onde se escondeu”, escreveu Camacho, numa referência à área da Bolívia central onde se supõe que se encontre Morales. “Os militares tiraram-lhe o avião presidencial e ele está escondido em Chapare, vão em frente!”, acrescentou. 

No domingo, horas depois de ter convocado novas eleições, Morales anunciou sua demissão, após 13 anos no poder, no seguimento de demissões de ministros, parlamentares e governadores. A pressão aumentou ainda mais para o agora ex-Presidente boliviano, com a polícia a juntar-se aos protestos antigovernamentais e, este domingo, com o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, William Kaliman, a exigir a sua demissão.​ Nas ruas, os manifestantes pediam a sua demissão — morreram três pessoas e mais de 400 ficaram feridas nesses protestos. 

A reeleição de Morales foi contestada pela oposição, que convocou manifestações em todo o país para denunciar os abusos cometidos pelas autoridades eleitorais. Para tentar acalmar os ânimos, o Presidente autorizou a OEA a enviar uma missão de observadores eleitorais para realizarem uma auditoria aos resultados. A equipa concluiu que houve irregularidades “muito graves” na contagem dos votos e aconselhou a realização de um novo sufrágio.

Evo Morales era um destacado activista pelos direitos das comunidades indígenas e, no poder, promoveu importantes reformas sociais e económicas, que tornaram a Bolívia num modelo de desenvolvimento na região. Nos últimos anos, porém, a sua insistência em permanecer no poder, desafiando um referendo que chumbou o fim dos limites de mandatos, fez dele um líder desgastado, bem distante da popularidade que chegou a granjear.

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